PARALISIA INFANTIL: o “fantasma” da poliomielite ressurge.

XAVIER, Josilda B. L. M.[1]

Universidade do Estado da Bahia – UNEB


Nova Iorque (EUA), maior e mais rica metrópole do mundo ocidental, em pleno século XXI, está em estado de alerta em relação ao vírus – Poliovírus -, que causa uma das doenças mais temidas do século XX, a paralisia infantil, e que foi encontrado em águas residuais (esgotos) do município, indicando que o patógeno está circulando, sem ter sido detectado. (DURDEN, 2022).


A confirmação da ocorrência do Poliovírus em esgotos da cidade de Nova Iorque, ocorre “menos de um mês após o país ter reportado o primeiro caso da doença em quase uma década”, levando as autoridades sanitárias alertarem a população para se vacinarem, “especialmente as crianças, que são o grupo mais afetado pela doença”. Para o comissário de saúde da cidade, "O risco para os nova-iorquinos é real, mas a defesa é simples: vacine-se contra a Poliomielite", afirmou em um comunicado. (EURONEWS, 2022; REUTERS, 2022).

Londres (Inglaterra), é outra metrópole que também está preocupada com a existência do vírus da poliomielite – Poliovírus -, que causa a paralisia infantil, circulando em seus esgotos. As evidências do retorno do poliovírus nas águas residuais (esgotos) da cidade, ocorreram “no final de junho, e as autoridades já lançaram uma campanha de reforço da vacinação para crianças menores de 10 anos” (EURONEWS, 2022).


No Brasil, o “alerta” em relação a possibilidade de recorrência da poliomielite, ocorreu em maio deste ano (2022), como uma das consequência da queda na taxa de vacinação, muito provavelmente em razão da pandemia Covid-19.


Para melhor entendermos sobre a luta da humanidade contra a poliomielite, é importante recorrermos à História que nos conta sobre a existência de relatos de seus efeitos desde a pré-história, em pinturas e esculturas do Egito Antigo, nas quais são representadas pessoas saudáveis com membros atrofiados e crianças caminhando com bengalas (ver imagem a seguir).


Na Europa, a primeira descrição clínica da doença foi fornecida pelo médico inglês Michael Underwood em 1789, na qual ele se referia à pólio como "uma debilidade das extremidades inferiores". O trabalho dos médicos Jakob Heine em 1840 e Karl Oskar Medin em 1890 levaram-na a ser conhecida como doença de Heine-Medin. Posteriormente, a doença foi chamada de paralisia infantil, baseado em sua propensão em afetar os membros inferiores de crianças. (PEARCE, 2005; DOBSON, 2002; PAUL, 1971 In: WIKIPÉDIA, S/D).

Campos, Nascimento e Maranhão (2003), no artigo “A história da poliomielite no Brasil e seu controle por imunização”, relatam que

na primeira metade do século XX as discussões sobre a poliomielite no Brasil se davam basicamente no âmbito médico e giravam principalmente em torno de modelos científicos explicativos da doença e sua forma epidêmica de incidência; na segunda metade do século, a aquisição de novas tecnologias - vacina, vigilância epidemiológica e diagnóstico laboratorial do poliovírus -, deslocou o âmbito da discussão para a área da saúde pública e possibilitou o estabelecimento de políticas de controle da doença no país”. (Grifo nosso)

Portanto, o trabalho desenvolvido por pesquisadores brasileiros, possibilitou que desde 1994, o Brasil e demais países da América Latina, fossem certificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como livres da poliomielite. Em 2015, no “Simpósio para Erradicação da Poliomielite no Mundo”, o Brasil apresentou as iniciativas que levaram o Brasil a alcançar e manter a erradicação da poliomielite. “Nós somos um dos poucos países de dimensão continental, com população nas cidades, nas periferias, nas matas, no interior, que conseguiu consolidar uma rede complexa de vacinação. Hoje oferecemos no Sistema Único de Saúde (SUS) todas as vacinas recomendadas como saúde pública pela Organização Mundial de Saúde (OMS)”, afirmou o então ministro Arthur Chioro. (FIOCRUZ, 2015)


Entretanto, especialistas na área da imunologia no Brasil, consideram que há vários motivos para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), fique sob condições de alerta em relação ao risco da reintrodução do Poliovírus no país e, “O principal deles, é a baixa cobertura vacinal. Apesar da gravidade das sequelas provocadas pela pólio, o Brasil não cumpre, desde 2015, a meta de 95% do público-alvo vacinado, patamar necessário para que a população seja considerada protegida contra a doença”. (DANDARA, 2022).


Em meio a tantos alertas sobre a possibilidade de que o “fantasma” da poliomielite volte a “assombrar” o mundo, é necessário lembrarmos da necessidade de recorrermos ao que a Ciência, ao longo dos anos, vem nos ensinando sobre vários aspectos fundamentais para a instituição universal da melhoria na qualidade de vida, como direito humano elementar.


A necessidade do desenvolvimento de uma política de saneamento básico universal, onde todos têm direito a um saneamento seguro e adequado, é um dos aspectos mais importante, para que a melhoria da qualidade de vida humana se efetive. Para tanto,


As instalações sanitárias devem estar localizadas onde a segurança física possa ser garantida. Assegurar um saneamento seguro também requer educação e promoção significativas sobre regras de higiene. Significa que os sanitários devem estar disponíveis para serem utilizados a qualquer momento do dia ou da noite e devem ser higiénicos; as águas e os sólidos residuais deverão ser eliminados de forma segura e as instalações sanitárias deverão ter uma construção sólida. Os serviços devem assegurar a privacidade e os pontos de água devem estar posicionados de forma a permitir o exercício da higiene pessoal, incluindo a higiene menstrual” (ONU, s/d).

Especificamente em relação ao Poliovírus, vírus que causa a paralisia e/ou deformações dos membros inferiores, principalmente em crianças, é necessário conhecer as características básicas de contágio, sintomas, diagnóstico, cuidados e, acima de tudo, prevenção.


A poliomielite é uma doença infectocontagiosa aguda causada pelo Poliovírus selvagem responsável por diversas epidemias no Brasil e no mundo. Ela pode provocar desde sintomas como os de um resfriado comum a problemas graves no sistema nervoso, como paralisia irreversível, principalmente em crianças com menos de cinco anos de idade” (DANDARA, 2022).

Em relação ao contágio / transmissão do Poliovírus, é importante não esquecer que uma pessoa pode transmitir diretamente para a outra. “A transmissão do vírus da poliomielite se dá através da boca, com material contaminado com fezes (contato fecal-oral), o que é crítico quando as condições sanitárias e de higiene são inadequadas” (FIOCRUZ, 2022), situação que nos lembra da necessidade de uma política de saneamento básico eficiente.


Como vimos, uma das formas de disseminação do vírus que causa a paralisia infantil, ocorre através da água e de alimentos contaminados por fezes. A poliomielite é uma doença infectocontagiosa aguda que pode ser

transmitida pela forma oral-oral, através de gotículas expelidas ao falar, tossir ou espirrar. O vírus se multiplica, inicialmente, nos locais por onde ele entra no organismo (boca, garganta e intestinos). Em seguida, vai para a corrente sanguínea e pode chegar até o sistema nervoso, dependendo da pessoa infectada. Desenvolvendo ou não sintomas, o indivíduo infectado elimina o vírus nas fezes, que pode ser adquirido por outras pessoas por via oral. A transmissão ocorre com mais frequência a partir de indivíduos sem sintomas [assintomáticos]” (FIOCRUZ, 2022). Grifo nosso.


Os sintomas mais comuns aparecem em um período de incubação de 7 a 12 dias, com características de outras viroses, tais como febre, dor de garganta, dor abdominal, náusea, vômitos, constipação (prisão de ventre) e diarreia (mais raro).


Cerca de 1% dos infectados pelo vírus pode desenvolver a forma paralítica da doença, que pode causar sequelas permanentes, insuficiência respiratória e, em alguns casos, levar à morte. Em geral, a paralisia se manifesta nos membros inferiores de forma assimétrica, ou seja, ocorre apenas em um dos membros. As principais características são a perda da força muscular e dos reflexos, com manutenção da sensibilidade no membro atingido” (FIOCRUZ, 2022).

Segundo os especialistas, não há tratamento específico para combater a poliomielite e, por isso, é uma doença que deve “ser evitada tanto através da vacinação contra poliomielite como de medidas preventivas contra doenças transmitidas por contaminação fecal de água e alimentos” (FIOCRUZ, 2022).


Diante disso, a população precisa ficar atenta às condições habitacionais, à política de saneamento básico de seu município, a higiene pessoal precária e o elevado número de crianças numa mesma moradia, pois são fatores que favorecem a transmissão do Poliovírus.


Além dos cuidados apontados, a vacinação de crianças até 5 anos de idade é fundamental. No Brasil, a vacina é dada rotineiramente nos postos da rede municipal de saúde – SUS -, e durante as Campanhas Nacionais de Vacinação, possibilitando que os pais e/ou responsáveis pelas crianças, possam mantê-las imunizadas contra o Poliovírus, através da vacinação.


Para que a imunização das crianças contra a paralisia infantil ocorra de forma eficaz, é necessário que a vacinação seja iniciada a partir dos 2 meses de vida, com mais duas doses aos 4 e 6 meses, além dos reforços entre 15 e 18 meses e aos 5 anos de idade. No processo de imunização que ocorre entre esse período, a Fiocruz (2022), informa que são utilizados 2 tipos de vacinas:


VIP (vacina inativada injetável) – É aplicada na rotina de vacinação infantil, aos 2, 4 e 6 meses, com reforços entre 15 e 18 meses e entre 4 e 5 anos de idade. Na rede pública as doses, a partir de um ano de idade, são feitas com VOP.


VOP (vacina atenuada oral) – Na rotina de vacinação infantil nas Unidades Básicas de Saúde, é aplicada nas doses de reforço dos 15 meses e dos 4 anos de idade e em campanhas de vacinação para crianças de 1 a 4 anos.


Em meio a tudo isso, observando que o sistema de civilização contemporâneo vem sofrendo, muito rapidamente, transformações e retrocessos que exigem de cada um de nós muita atenção em relação aos aspectos que são fundamentais para a manutenção da qualidade de vida humana e planetária. Entre esses aspectos, o nível de qualidade da saúde de nossas crianças é o que mais nos preocupa.


Assim, no que diz respeito a saúde humana, é necessário estarmos atentos com o tipo de alimento que nossas crianças ingerem, a qualidade da água que bebem, sua higiene corporal, o nível de imunização contra microrganismos através da vacinação, e o nível da qualidade do ensino que elas têm acesso.


Por outro lado, é necessário que nos perguntemos:


Qual a razão de haver retrocesso civilizatório na qualidade de vida humana e planetária, já que microrganismos (vírus, bactérias, fungos) que causam doenças graves, conhecidos e controlados pela Ciência (vacinas, medicamentos), voltam a causar preocupação e dor para a humanidade?


Qual a responsabilidade dos governos de países considerados desenvolvidos e/ou subdesenvolvidos, em relação a falta de investimentos em políticas públicas educacionais e sanitárias para protegerem sua população de doenças já consideradas extintas e/ou controladas?

Esse é um momento importante para refletirmos sobre dois aspectos essenciais para lutarmos, de forma permanente, em prol do processo civilizatório contemporâneo:

Educação e Saúde.



[1] Docente do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas/UNEB/DEDC/Campus VIII; Coordenadora e Editora-chefe do site Laboratório Criativo Umbuzeiro – Ciência no ciberespaço (https://www.labcriatumbuzeiro.com/); Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0838920937933125


REFERÊNCIAS

CAMPOS, André Luiz Vieira de; NASCIMENTO, Dilene Raimundo do; MARANHÃO, Eduardo. A história da poliomielite no Brasil e seu controle por imunização. História, Ciências, Saúde Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. 10 (suplemento 2):573-600, 2003.


DANDARA, Luana. Pesquisadores da Fiocruz alertam para risco de retorno da poliomielite no Brasil. Fiocruz. Publicação: 4 de maior de 2022. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisadores-da-fiocruz-alertam-para-risco-de-retorno-da-poliomielite-no-brasil


DURDEN, Tyler. NYC alerta cidade "circulando poliomielite" após vírus encontrado em esgoto. Zero Hedge. Publicação: 12 de agosto de 2022. Disponível em: https://www.zerohedge.com/medical/nyc-health-department-warns-polio-circulating-city-after-virus-found-sewage?ao_status=selected


EURONEWS. Vírus da poliomielite detectado nas águas residuais de Londres e Nova Iorque. Euronews. Publicação: 13 de agosto de 2022. Disponível em: https://pt.euronews.com/2022/08/13/virus-da-poliomielite-detetado-nas-aguas-residuais-de-londres-e-nova-iorque


FIOCRUZ. Poliomielite: sintomas, transmissão e prevenção. Fiocruz. Bio-Manguinhos. Publicação: 4 de abril de 2022. Disponível em: https://www.bio.fiocruz.br/index.php/br/poliomielite-sintomas-transmissao-e-prevencao


ONU. O Direito Humano à Água e Saneamento. s/d. Disponível em: https://www.un.org/waterforlifedecade/pdf/human_right_to_water_and_sanitation_media_brief_por.pdf


REUTERS. Vírus da pólio é encontrado em esgoto de New York; autoridades investigam disseminação. Agência Reuters. Yahoo. notícias. Publicação: 1º de agosto de 2022. Disponível em: https://br.noticias.yahoo.com/v%C3%ADrus-da-p%C3%B3lio-%C3%A9-encontrado-215120378.html

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