Você sabe o que é Bycatch?

Bycatch, a captura acidental ou incidental, é uma das maiores ameaças aos mamíferos aquáticos no mundo.


SILVA, Maria Lorena da[1]

Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE



Provavelmente você que está lendo esse artigo gosta de comer peixe, camarão, ou os variados tipos de animais marinhos comercializados no mercado e em restaurantes, certo? Mas você já parou para pensar em como esses animais são capturados? Certamente o que passa pela sua cabeça são redes de pescas, ou anzóis, mas o que poucas pessoas sabem é que a atividade de pesca para a captura dos animais fortemente comercializados para determinados fins, também são responsáveis pelo declínio da biodiversidade e extinção de boa parte da fauna marinha.

Um dos assuntos mais preocupantes para conservacionistas marinhos atualmente é o “ByCatch” , a captura acidental ou incidental de animais não-alvos em redes e artefatos de pesca, ou seja, os pescadores não colocam um artefato de pesca para a captura desses animais, mas mesmo assim são capturados, e em seguida descartados, sendo considerada uma das maiores ameaça aos mamíferos aquáticos no mundo (YOUNG ; LUDICELLO, 2007). Há uma estimativa de que cerca de 40 % do que é pescado hoje é ByCatch (KELEDJIAN et al., 2014). Outra estimativa alarmante é que a cada 1 kg de camarão pescado, 21 kg de fauna marinha foi capturado junto e por não serem espécies alvo são descartados (AISH; TRENT; WILLIAM, 2003).


Além disso, fora a captura acidental, outro problema decorrente são as redes e acessórios de pesca que de alguma forma são abandonados ou descartados no mar, também conhecidos como redes fantasmas ou pesca invisível (MACFADYEN et al., 2009), quando abandonados no oceano, continuam captando, machucando e matando animais que ficaram presos aos mesmos, e assim consequentemente, a maioria desses animais morrem afogados pois não conseguem subir até a superfície para respirar, como as tartarugas por exemplo; ou sofrem lacerações que infeccionam e os matam lentamente, sendo esta última situação vista frequentemente em baleias e golfinhos (CASSOFF et al. 2011). Apesar da estimativa de 640 mil toneladas desses apetrechos serem encontrados no mar anualmente (MACFADYEN et al., 2009), existem outros milhares que não são encontrados, o que inviabiliza a mensuração do impacto causado por eles.

Esses problemas têm levado várias espécies ao risco de extinção, estima-se que cerca de mais de 300 mil baleias e golfinhos morrem todos os anos em decorrência do bycatch, sendo já registrados 24 espécies desses cetáceos como animais que correm risco de extinção (YOUNG; LUDICELLO; 2007, IWC, 2019).


Aqui no Brasil temos o exemplo da Toninha, uma espécie de golfinho, que chega a mais ou menos 1,7 m de comprimento, é um animal pouco conhecido do público em geral, encontrados apenas na Argentina, no Uruguai e em parte do litoral brasileiro, entre o Espírito Santo e o Rio Grande do Sul, está na Lista Oficial das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, de acordo com o Livro Vermelho do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Portaria MMA nº 444/2014), e é considerada vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) (VIVA, 2020). Entre outras milhares de espécies que morrem anualmente, como tartarugas e aves marinhas , por exemplo.

Existe uma mobilização de pesquisadores, institutos e ONGS mundialmente, ao qual se dedicam em pesquisas com o intuito de diminuir o impacto do bycatch. Não tem sido uma tarefa fácil, pois além da atividade da pesca ser importante economicamente é também o sustento de milhares de famílias, e algumas restrições dessa atividade tem levado a conflitos socioambientais. Algumas técnicas vêm sendo implantadas e obtendo resultados, porém geralmente as mudanças na técnica de pesca requer recursos e geralmente os custos são altos e não acessíveis aos pescadores.


Como uma forma de construir uma linha de base para abordar o problema de redes fantasmas, o GGGI (Global Ghost Gear Initiative), a primeira e maior aliança intersetorial do mundo comprometida em direcionar soluções para o problema de engrenagem fantasma em mundialmente, vem monitorando desde de 2018 a ocorrência de engrenagem fantasma através de seu portal de dados, permitindo que dados, como o tipo de engrenagem e características, bem como fotografias e localizações geográficas do equipamento a ser carregado, aos quais vem ajudando a estabelecer uma linha de base de evidências sobre artes fantasmas e para analisar quais pescarias usam os equipamentos semelhante, onde é encontrado e quais criaturas são pego nele (COOKE et al., 2019).


A marcação de engrenagens de pesca é outro fator importante, na sessão 33ª do comitê da FAO (COFI), em Roma, em fevereiro de 2018, a Sociedade Mundial de Proteção aos Animais (World Animal Protection) obteve sucesso ao pressionar a ONU para adotar diretrizes para marcação de artes de pescas. Depois do COFI e das intervenções de Kuwait, Fiji, Panamá, Argentina e Canadá, este é um essencial componente na luta contra o equipamento fantasma que tem sido incorporado pela FAO (COOKE et al. 2019).


Alguns países têm se posicionado para tentar amenizar os impactos, como a União Europeia lançou políticas fortes sobre as artes de pesca para evitar a morte de animais por pesca fantasma, com metas bem desafiantes de coletar 50% das redes de pescas e reciclar 15 % das redes até 2025. Enquanto outros países como a Holanda e a Indonésia estão colaborando na implementação de diretrizes de marcação de engrenagem. Entre outras ações e mobilizações ao redor do mundo (COOKE et al. 2019).


Aqui no Brasil temos o exemplo do Viva Instituto Verde e Azul, que criou o “Stop ByCatch Day”, o Dia Internacional PARE a Captura Acidental, que ocorre no dia 1 de dezembro, e que em parceria com outros pesquisadores e programas de conservação marinha, tem como objetivo compartilhar a situação atual os problemas da pesca acidental nas atividades pesqueira, com a ideia de conscientizar especialistas, estudantes, pescadores, órgãos públicos, políticos e população em geral sobre a grande ameaça que os animais marinhos estão sofrendo decorrente do problema, e assim juntos buscar soluções (VIVA, 2018).




[1] Mestranda em Etnobiologia e Conservação da Natureza - Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE. Graduada em Ciências Biológicas - Licenciatura pela Universidade Estadual de Alagoas, UNEAL.




REFERÊNCIAS


AISH, A.; TRENT, S.; WILLIAMS, J. Squandering the Seas: How shrimp trawling is threatening ecological integrity and food security around the world. London, UK: Environmental Justice Foundation, 2003.


CASSOFF, R.M.; MOORE, K.M.; McLELLAN, W.A.; BARCO, S.G.; ROTSTEIN, D.S.; MOORE, M.J. Lethal entanglement in baleen whales. Dis Aquat Org. v. 96 n.3 p.175–185, 2011.


COOKE, M. et al. Ghosts beneath the waves. 2nd Edition. World Animal Protection: 2019. E- book.


G1 SC. Toninha, espécie de golfinho ameaçado de extinção, é salva de rede de pesca em SC.

Disponível:https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2021/09/19/toninha-especie-de-golfinho-ameacado-de-extincao-e-salva-de-rede-de-pesca-em-sc.ghtml. Acesso em: 19 de nov. 2021.


IGUI ECOLOGIA. Pesca Predatória. Disponível em: https://www.iguiecologia.com/pescados-com-codigo-para-rastreamento-uma-otima-novidade-para-o-meio-ambiente/pesca-predatoria/. Acesso em: 19 de nov. 2021.


INTERNATIONAL WHALING COMMISSION - IWC. Report of the IWC Workshop on Bycatch Mitigation Opportunities in the Western Indian Ocean and Arabian Sea. (Report NO. BMI workshop report 05-19). International Whaling Commission, 2019. Disponível em : https://iwc.int/bycatch-mitigation-in-the-indian-ocean-iwc. Acesso em: 20 out. 2021.


KELEDJIAN, A. et al. Wasted catch: unsolved problems in US fisheries. Washington, DC: Oceana, 2014.


MACFADYEN, G.; HUNTINGTON, T. CAPPELL, R. Abandoned, lost or otherwise discarded fishing gear. United Nations Environment Programme Regional Seas Reports and Studies 185, Rome: FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) Fisheries and Aquaculture Technical Paper 523, 2009.


VEJA, Pescaria invisível. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/pescaria-invisivel/. Acesso em: 19 de nov. 2021.


VIVA. Dia Internacional PARE a Captura Acidental. Disponível em: http://www.viva.bio.br/captura-acidental-bycatch/. Acesso em: 19 de nov. 2021.


VIVA. VIVA Toninha. Disponível em: http://www.viva.bio.br/vivatoninha/. Acesso em: 19 de nov. 2021.


YOUNG, N.M. ;. LUDICELLO, S. Worldwide Bycatch of Cetaceans. U.S. :Dep. Commerce, NOAA Tech. Memo. NMFS-OPR-36, 276p, 2007.



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