UTILIZAÇÃO DE FUNGOS NA BIORREMEDIAÇÃO DE SOLOS CONTAMINADOS

SILVA, Luene Melo[1]

Universidade do Estado da Bahia - UNEB



Uma das mais remotas práticas que evidencia as primeiras interações homem-natureza está registrada no uso do solo para o cultivo vegetal. Desde quando se observara as demais técnicas de manejo agrícola ou até mesmo na construção civil, nota-se como o solo participa quase que inteiramente da vida humana. Todavia, apesar do solo nos proporcionar condições para o cultivo de alimentos necessários para nossa sobrevivência, as ações antrópicas evidenciam que o nosso papel frente a preservação da natureza demonstra ser bastante instável.



Uso do solo e impactos ambientais do século XXI


O Brasil no início da década de 1970, em plena era da Revolução Industrial, enfrentava seus primeiros embates ambientais, no que diz respeito as consequências inferidas no uso descontrolado dos recursos naturais o que propiciou uma grave fragilidade ecossistêmica (INATOMI; UDAETA, 2005). Ao longo dos últimos anos, a humanidade vivencia uma verdadeira crise ambiental que, de forma crucial, afeta a qualidade de vida do homem e de outras espécies. Não obstante, frequentemente são noticiados os mais diversos relatos sobre queimadas, desmatamentos e assoreamentos, que demostram um perigo eminente em relação a proteção do ambiente.


Um amplo estudo realizado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em 2015, intitulado de ‘Estado da Arte do Recurso Solo no Mundo' (Status of the world´s soil resources) traz uma perspectiva global sobre as condições atuais do solo, revelando que os solos do mundo já se encontram 30% degradados.


Segundo Fullen e Catt (2004), a degradação dos solos cobre uma série de processos complexos, o que incluem a erosão, a expansão de áreas desérticas, a contaminação dos solos, entre outros fatores. Apesar de estarmos em um constante e rápido crescimento populacional, as mudanças climáticas também acompanham esse percurso, o que nos leva a buscar soluções que podem desacelerar este agravante global, entre as quais, se encontra a biorremediação.


Fungos a serviço da Biorremediação


A biorremediação é uma técnica ou processo biotecnológico que utiliza organismos vivos (microrganismos) para modificar ou decompor os poluentes-alvo em metabólitos menos tóxicos, isto é, esses microrganismos são capazes de tratar um contaminante de alta toxidade e transformá-lo em algo atóxico (não tóxico), através da utilização de suas enzimas que são capazes de degradar o contaminante, que se tornará o seu alimento (BRITO, 2005; GAYLARDE et al, 2005), como pode ser visto nas representações abaixo.



De acordo com Bamforth e Singleton (2005) esta biotecnologia vem sendo utilizada há anos em vários países e, em certos casos, apresenta menor custo e maior eficiência na remoção dos contaminantes do que as técnicas físicas e químicas, sendo atualmente utilizada em escala comercial no tratamento de diversos resíduos e na remediação de áreas degradadas.


Nos últimos trinta anos do século XX, inicia-se o estudo da utilização de fungos em técnicas de remoção dos poluentes. Os primeiros trabalhos estão registrados nas pesquisas de Peralta -Zamora et al (1998), nas quais são relatadas o uso de Saccharomyces cerevisiae para a remoção de lindano (inseticida organoclorado). Posteriormente, fungos do gênero Asperliluis foram utilizados em trabalhos de degradação de heptacloro (agrotóxico organoclorado sintético). Todavia, observa-se que as pesquisas de biorremediação por fungos passaram a receber maior atenção e maior incremento somente nas últimas décadas do século XX.


Em seu livro “Micorremediação: biorremediação fúngica”, Singh (2006) descreve que os fungos são organismos que degradam uma variedade de compostos e por isso são promissores em pesquisas que buscam estudar a recuperação de áreas degradadas por meio da biorremediação.


Fungos basidiomicetos, também são bastante utilizados na biorremediação por terem a capacidade de degradar inúmeros compostos com alto espectro poluente. As pesquisas de Cameron et al (2000) e Zouari et al (2002), que utilizam linhagens da espécie Phanerochaete chrysosporium demostram uma eficácia na degradação de compostos poluentes como da lignina, lindano, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, dioxinas, revelando os avanços da biotecnologia que auxiliam na recomposição de áreas degradadas.



Principais processos de Biorremediação


As técnicas de biorremediação podem ocorrer de duas formas principais, são elas: In situ, onde o material contaminado é tratado no próprio local ou Ex situ quando o material contaminado é retirado para que seja tratado em outro local. Para que esses processos tenham eficiência o contaminante precisa estar acessível ao microrganismo, assim como os fatores ambientais necessitam estarem adequados para o crescimento do biorremediador.


A técnica de biorremediação in situ, pode ser utilizado em processos denominados de atenuação natural, bioestimulação, bioeumentação, bioventilação e Landfarming. No processo de atenuação natural a ação da degradação dos compostos contaminantes será feita de forma natural pelos microrganismos que já estão presentes naquele ambiente. Na bioestimulação, nutrientes serão adicionados no local como maneira de estimular os microrganismos. Para a bioaumentação, é selecionado somente os microrganismos de alto teor potencial de degradação do poluente. Em bioventilação, gases serão adicionados no local como maneira de estimular a atividade de degradação realizada pelos microrganismos, já no processo de Landfarming é aplicado resíduo na superfície do solo, neste caso, pode ser adicionado corretivos, fertilizantes e alguns microrganismos.


Na técnica de biorremediação Ex situ, temos apenas dois processos: a compostagem e os biorreatores. De acordo com Semple et al (2001) a compostagem é definida como um processo que irá misturar algum composto orgânico com outro que já se encontre contaminado, sendo que os microrganismos presentes no composto orgânico irão transformar os compostos contaminantes em inofensivos. Os biorreatores são grandes tanques fechados, onde neles são depositados os materiais contaminados e uma grande quantidade de água, com a adição de microrganismos que serão responsáveis por degradar o poluente, neste processo há um controle nas condições ambientais, tais como: pH, temperatura e aeração.


A utilização da biorremediação, demostrou ser um processo que atenua as chances de riscos futuros, principalmente ser um processo (mais ou menos) natural e por ter a capacidade de tratar os locais que foram contaminadas pelo descarte de resíduos que são tóxicos ao ambiente. Apresenta ser uma tecnologia promissora uma vez que são aplicações de baixo custo e permite que as atividades do solo, por outrora comprometido, continuem de maneira normal.


Os fungos demostraram serem eficientes para as atenuações de locais contaminados, onde, com a presença destes contaminantes, prejudicam e influenciam negativamente aos diversos organismos existentes no local. Diante disso, tornam-se urgente e necessário novas pesquisas que auxiliem na compreensão sobre a importância dos microrganismos, especialmente os fungos, que contribuem para o equilíbrio do ecossistema terrestre.


Além do investimento de empresas privadas (que mais degradam o ambiente) e das autoridades governamentais que viabilizem novas possibilidades e regulações de uso da biorremediação em locais que apresentam altos índices de degradação, é necessário que essas ações sejam verdadeiramente sustentáveis, em relação ao cuidado e recuperação de áreas degradadas no Antropoceno.






[1] Graduanda do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade do Estado da Bahia – UNEB/DEDC/Campus VIII.



REFERÊNCIAS


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