TUBERCULOSE. INFECÇÃO PULMONAR GRAVE E SEU CONTEXTO POLÍTICO-SOCIOAMBIENTAL.

XAVIER, Josilda B.L.M[1].

Universidade do Estado da Bahia - UNEB



Como o Brasil cuida das infecções que assolam a população?


O Brasil é um país que oferece à sua população acesso aos cuidados sanitários e de tratamento, no combate às infecções que afetam os seres humanos, como a tuberculose, por exemplo?


Estas perguntas refletem a preocupação que afeta parte significativa da população brasileira, em relação a situação sanitária (esgoto, água potável, recolha de lixo, moradias decentes) do país, especialmente a partir do que está acontecendo com a pandemia COVID-19, causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, que tem sido responsável por mais de meio milhão de mortes, sem que o Governo Federal / Ministério da Saúde brasileiro tenha tomado as providências necessárias para evitar a tragédia que se abate sobre a população, principalmente sobre as pessoas em situação de maior vulnerabilidade (moradores de ruas, de periferias, de favelas, de zonas rurais, desempregados, com comorbidades etc.), decidindo usar a vacina, como moeda de troca política e "econômica".


Além da falta de ações coordenadas pelos gestores do país para o enfrentamento da COVID-19, a população tem se confrontado com informações falsas (fake news), criadas com o propósito de promover a desinformação e insegurança na população, há outras questões que estão sendo colocadas em segundo plano; por exemplo:


Como outras infecções estão sendo tratadas pelo sistema de saúde do país e, em especial, a tuberculose, doença causada por bactéria mortal que afeta 1 a cada 4 pessoas e faz mais de 70 mil brasileiros(as) adoecerem todos os anos?


Não podemos esquecer que a tuberculose, também conhecida pelos nomes de “tísica pulmonar”, “peste branca” ou “doença do peito”, é uma doença infecciosa, que pode levar à morte, causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, também conhecida como bacilo de Koch, em homenagem a Robert Koch, que a identificou, pela primeira vez em 1882.


Pesquisadores da Fiocruz (2021), afirmam que a tuberculose continua sendo a doença infecciosa mais mortal no mundo; segundo as pesquisas realizadas, diariamente, quase 4 mil pessoas perdem a vida em decorrência da tuberculose, e cerca de 28 mil adoecem por essa doença evitável e curável. No Brasil, todos os anos, ocorrem aproximadamente 74 mil casos novos e 4.500 óbitos.


“A TB [tuberculose] está intimamente ligada e enraizada a fatores como pobreza, habitação lotada e inadequada, insegurança alimentar e acesso desigual aos serviços de saúde. Infelizmente, esses fatores não podem ser tratados por uma vacina”, lamenta o pesquisador Paulo Victor Vianna, do Centro de Referência Professor Hélio Fraga, departamento da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), considerado referência para pesquisas, tratamento e diagnóstico da TB [tuberculose]. (FIOCRUZ, 2021) [Grifo nosso]


A primeira evidência, mais segura, de que a tuberculose afeta a saúde humana foi constatada em 44 múmias bem preservadas, datadas de 3.700 a 1.000 A.C., todas em Tebas, no Egito. Esses achados revelam que muitos faraós foram tuberculosos e morreram extremamente jovens. Amenophis IV e sua linda esposa Nefertiti, cujo busto de ouro maciço é a maior atração do museu egípcio de Berlim, morreram de tuberculose em torno de 1.300 A.C. (ROSEMBERG, 1999).


Rosemberg (1999), nos adverte que em toda a história das "conquistas" territoriais, nos processos de invasões, também chamadas de “colonização”, onde o homem “civilizado” chegou, levou consigo a bactéria da tuberculose, contaminando os povos originários, os quais, sem defesas imunitárias, tiveram uma parcela significativa da população dizimada. Esses episódios se repetiram nas invasões territoriais dos europeus aos países da África, Ásia, América e Polinésia.


Ao analisar as evidências de que havia uma repetição na ação de levar pessoas com tuberculose para os novos territórios invadidos, através de registros históricos, Webb (1932) desenvolveu a tese de que "ante a terrível mortandade provocada pela tuberculose nessas populações expostas, essa doença foi um dos pontos cardeais, como maior aliado dos civilizados nas conquistas dos povos aborígenes" (In: ROSEMBERG, 1999), revelando uma ação genocida, deliberada, por parte dos invasores europeus em relação aos povos originários. (Grifo nosso)


Na “colonização” do Brasil vieram jesuítas e colonos, na maioria tuberculosos, atraídos e destacados pelos "benefícios do clima ameno". Eles contaminaram os índios, tuberculizando-os em massa, na primeira fase da colonização. Em cartas de Inácio de Loyola (1555) e de Anchieta (1583) dirigidas ao Rei de Portugal, D. João III (1502-1557), está descrito que "os índios, ao serem catequisados, adoecem na maior parte com escarro, tosse e febre, muitos cuspindo sangue, a maioria morrendo com deserção das aldeias". (ROSEMBERG, 1999). (Grifo nosso)


É importante chamar a atenção para o fato de que, infelizmente, ações genocidas como as citadas acima, ainda ocorrem no Brasil, hoje, em pleno século XXI. Os povos indígenas da Amazônia, são presas fáceis de “doenças dos brancos”, para as quais seus sistemas imunitários não estão preparados, quando têm seus territórios invadidos com o avanço de grileiros (pessoas que falsificam documentos para, ilegalmente, tomar posse de terras devolutas ou de terceiros) em busca de mais terras para criação de gado, tráfico de madeira e mineração. (HIERRO, 2018).


É importante destacar que a tuberculose está também associada à pobreza extrema, principalmente em lugares remotos do Brasil, onde a pobreza desencadeia diversos outros problemas como a fome, a miséria, desnutrição, moradia imprópria, condições de higiene escassas, bem como a falta de saneamento básico. “Políticas públicas criadas atualmente fornecem tratamento gratuito a população, porém há o desafio para que esse tratamento chegue até as mãos dos usuários do Sistema Único de Saúde – SUS” (TAVARES et al., 2020).


Diversas infecções graves que acometem a população de países periféricos e/ou em desenvolvimento, estão diretamente relacionadas às degradações ambientais que impactam a vida e saúde da população que reside naquele determinado ambiente. Os fatores ambientais tornam a tuberculose um problema de saúde pública, uma vez que acometem mais países pobres ou em desenvolvimento, tais como a poluição do ar, diversos tipos de fumaça, uma vez que esses fatores são veículos para contaminação de pequenas residências, presídios com capacidade de lotação sobrecarregada, com pouca circulação de ar. (FERNANDES, 2018; PELISSARI, 2019; TEMOTEO et al., 2019).


"Outro fator ambiental que pode estar relacionado à tuberculose, é a sazonalidade, a doença pode ter maior índice de transmissão em determinadas épocas do ano, no inverno, por exemplo, a população tende a ficar em ambientes fechados e aglomerados, contribuindo para a o aumento da transmissão. Ambientes com superfície úmida podem garantir a sobrevida de micobactérias por até 43 dias, o que favorece a contaminação de pessoas, por tuberculose". (FERNANDES, 2018; TITOSSE, 2019). (Griso nosso)


A tuberculose primária é a forma mais comum após a infeção pela bactéria Mycobacterium tuberculosis / bacilo de Koch, resultando em uma pequena área de pneumonite. Após esta fase inicial, o sistema imunológico ou imunitário (sistema de defesa do organismo), geralmente, evita que a doença se propague, mas pode abrigar as micobactérias que causam tuberculose. Por este motivo, segundo Costa (2020), faz-se uma distinção entre dois tipos de tuberculose:


"Tuberculose latente - situação em que existe uma infeção por tuberculose, mas as bactérias permanecem no corpo num estado inativo e não causam sintomas. A tuberculose latente não é contagiosa. A tuberculose latente, também é chamada de tuberculose inativa ou tuberculose infecção.


Tuberculose ativa - nesta situação, a doença pode contagiar outros indivíduos. Esta reativação ou tuberculose secundária pode ocorrer nas primeiras semanas após a infeção ou pode ocorrer anos mais tarde. Não podemos falar em período de incubação da tuberculose, mas o processo de transformação de tuberculose infecção em doença pode demorar anos ou inclusive nunca ocorrer."


O risco de infecção com a bactéria Mycobacterium tuberculosis, que causa a tuberculose, é maior em pessoas com idade muito jovem ou muito avançada (idosos). “Apesar do risco ser semelhante nos homens e nas mulheres, os homens possuem uma maior incidência devido aos fatores de risco serem mais predominantes no sexo masculino. Nomeadamente a infecção pelo HIV, alcoolismo, tabagismo, toxicodependência”. (COSTA, 2020)


São variados os sintomas da tuberculose ativa:


Ø Expectoração com sangue;

Ø Tosse com duração de três ou mais semanas;

Ø Dor no peito ou dor com respiração ou tosse, vulgarmente definida como “pontada” e “dor nas costas”;

Ø Perda de peso involuntária;

Ø Fadiga (cansaço);

Ø Febre, embora o doente com tuberculose nem sempre tenha febre associada;

Ø Suor noturno (transpiração durante a noite);

Ø Arrepios;

Ø Perda de apetite;

Ø Rouquidão ou dor de garganta (tuberculose laríngea).


A doença ativa não tratada afeta geralmente os pulmões, mas pode disseminar-se para outras partes do corpo através da corrente sanguínea (tuberculose disseminada).


Os exemplos conhecidos de tuberculose extrapulmonar, segundo Costa (2020), incluem:


Tuberculose óssea (nos ossos), Tuberculose da coluna vertebral - dor nas costas e rigidez são complicações comuns da tuberculose;


Doença articular - a artrite tuberculosa geralmente afeta o quadril e os joelhos;


Tuberculose cerebral (no cérebro) – inflamação das membranas que cobrem o cérebro (meningite). Isso pode causar dor de cabeça duradoura ou intermitente que ocorre durante semanas. Alterações mentais também são possíveis na tuberculose cerebral;


Tuberculose ganglionar - quando a doença provoca um aumento do tamanho dos gânglios linfáticos; no pescoço, axilas;