TRANSGENIA E MONOCULTURA: O NOVO ÔNUS DE UM PROBLEMA SECULAR

SOUZA, Pallôma Rebecka Paiva Silva[1]

Universidade do Estado da Bahia - UNEB



Dentro da produção agrícola em nível mundial, temos um modelo principal para a geração de alimentos, chamada de monocultura. Este tipo de cultivo faz referência a um sistema de exploração do solo com ênfase em apenas um tipo de cultivo, sendo os principais no Brasil: milho, soja, algodão e café. Esta forma de produção está presente em toda a história do nosso país, passando por diversas implementações a partir do uso das novas tecnologias que, desde o início, tem causado a degradação ambiental, principalmente do solo, unida atualmente a uma nova preocupação científica e nutricional: a incorporação de sementes transgênicas em sua produção. (DINÂMICA AMBIENTAL, 2017)


A monocultura é um tipo de produção agrícola que gera diversos prejuízos a natureza, pois, em sua prática, inicialmente, a cobertura vegetal do espaço destinado a plantação, é totalmente removida, fazendo com que os índices de desmatamento aumentem, destruindo a proteção natural do solo. Desse modo, o solo fica empobrecido e inviável para o plantio de outras culturas. Outra prática, extremamente danosa ao ambiente, o uso de agrotóxicos, é maior nas monoculturas, incentivando o aumento destes produtos químicos nas plantações, causando maiores consequências para a saúde e ao meio ambiente. (IDEC, 2021)


A monocultura é a principal forma de cultivação do agronegócio, que tem seus fins de produção voltados, expressivamente, ao atendimento da demanda internacional de produtos alimentícios, valorização das empresas no mercado, aumentando cada vez mais sua lucratividade. Para tanto, o agronegócio investe e insere ferramentas tecnológicas que promovem novas formas de aumentar a colheita e reduzir os custos de produção, a partir do uso de máquinas, agroquímicos, redução do número de trabalhadores rurais e inserção do uso de qualquer outro material que promova esta finalidade (FRIGO, et al., 2009).


As evidências de como o lucro a partir da diminuição de custos nas monoculturas só aumenta, é o uso de novas tecnologias de informação (TI), bem como a chamada Internet das Coisas (IoT) (MAAKAROUN, 2020), que o agronegócio tem praticado em larga escala, podem ser verificadas na abordagem abaixo, publicada na Revista IstoÉ on-line / Dinheiro Rural:


Os benefícios para a agricultura de precisão são diversos. Além das funções tradicionais, tratores e colheitadeiras conectados se transformam em geradores de informações sobre o solo e a lavoura, auxiliando no combate às pragas e na correção da acidez do solo, entre outros inúmeros exemplos. À distância, é possível ter dados também do maquinário em tempo real – em geral, obtidos com alto investimento –, permitindo a manutenção preventiva e customizada para cada tipo de equipamento, auxiliando, assim, na redução de custos (SILVA, 20219), incluindo a redução, cada vez maior, da presença de trabalhadores rurais/agrícolas.



Uma outra consequência que surgiu a partir da necessidade de maior resistência da planta aos diversos agrotóxicos usados nas plantações, é a transgenia. Os Organismos Geneticamente Modificados (OGM), como também são chamadas as sementes transgênicas, são organismos manipulados em seu código genético a partir da introdução de um gene não pertencente à planta, fazendo com que seu DNA seja alterado em laboratório a partir da Engenharia Genética, desenvolvendo novas características como, por exemplo, o aumento de sua resistência aos agrotóxicos durante o combate às “pragas” e “ervas daninhas” (EMBRAPA, s.d.).


Ou seja, todos os organismos em volta da planta modificada geneticamente, poderão sofrer danos que causam suas mortes ou promoverão sua resistência, enquanto a planta modificada geneticamente, continua “viva”, recebendo e assimilando altas doses de substâncias químicas, os chamados agrotóxicos ou “defensivos” agrícolas.


Entretanto, é importante destacar que, mesmo levando em consideração o fator de resistência, que é tido como algo positivo dentro do agronegócio, por fazer com que a plantação seja mais resistente, a transgenia não possui maior produtividade, quando comparada com as sementes naturais (FRIGO, et al., 2009), ou sementes crioulas, como são chamadas pelos povos e comunidades tradicionais. Nas pesquisas feitas mais recentemente percebeu-se que as sementes crioulas representam o legado cultural, social, ambiental e econômico perdidos com a introdução de sementes comerciais (transgênicas e melhoradas) (ANDRADE, et al., 2020).


Desse modo, não podemos esquecer que as sementes transgênicas, além de causarem inseguranças com relação a boa alimentação e saúde humana devido à pouca quantidade de testes que foram feitos, passaram a fazer parte da maioria dos produtos alimentícios disponíveis nos mercados, e que são consumidos pelos brasileiros sem a chance de escolha da população e muitas vezes, comprados de forma despercebida (FRIGO, et al. 2009) ou sem nenhuma informação / conhecimento.


Retrocesso mascarado: com mais malefícios do que benefícios, os alimentos transgênicos são voltados para o lucro


As sementes modificadas foram desenvolvidas para facilitar o processo produtivo dentro da agricultura, mas não se limita somente a ela, sendo encontrada também na ração de animais. Essa “facilidade” vem do ponto em que os transgênicos são divididos em dois grupos: os que possuem resistência a herbicidas e as plantas que têm função inseticida. (FRIGO, et al. 2009).


Em nosso país, o tipo utilizado pertence ao primeiro grupo citado acima, mas este atributo acaba resultando em diversos malefícios, pois isso faz com que o uso de agrotóxicos seja maior, graças a capacidade da planta de não ser atingida, o que também resulta na resistência das ervas daninhas presentes nos campos de produção, fazendo com que a quantidade de agrotóxicos utilizada seja cada vez maior e, com isto, tem-se um alimento altamente contaminado. (LAZZARINI, 2004)



Outro fator que deve ser ressaltado, está voltado para a saúde humana. Como poucos estudos foram feitos para a aprovação do uso de sementes transgênicas para a produção de alimentos, ainda são incertas todas as consequências da utilização dessas sementes em produtos alimentícios. Entretanto, alguns estudos já comprovaram que houve aumento de alergias em pessoas que consumiram este tipo de alimento e, que houve resistência a antibióticos. (AMORIM; SOUZA, 2019)


Além disto, resíduos de agrotóxicos tendem a ficarem em maior concentração nas plantas com sementes transgênicas, devido a maior quantidade de uso, causando também contaminação do solo e da água, além da destruição dos insetos, fauna e flora próximas da plantação. Também possuem altos riscos de contaminar plantações livres de transgenia e agrotóxico, comprometendo as produções com sementes crioulas, podendo deixar de serem lavouras convencionais e ecológicas pela grande facilidade de disseminação dessas sementes. (ZIMMERMANN, 2009)


“T” de Transgênico ou “V” de Veneno?


Produtos com alimentos geneticamente modificados em sua composição são identificados a partir de um “T” dentro de um triângulo amarelo nas embalagens dos alimentos, principalmente os que são à base de soja, milho e trigo, nos produtos alimentícios processados e ultra processados: salgadinhos, bolachas, biscoitos, além de atualmente estar presente em temperos, alimentos como cuscuz, leite de soja, margarina, cereais, salsicha e diversos outros, já que as sementes transgênicas têm se tornado cada vez mais a base da produção dos alimentos que mais estão presentes na mesa da população. (IDEC, 2021)



A nossa alimentação é baseada naquilo que é produzido em nossa terra e no que ela nos disponibiliza através da Agricultura Familiar; ademais, a monocultura está mais voltada para produção desagregada de valores culturais e com propósito de exportação, ignorando tanto a preservação da natureza, quanto a das sementes originais não modificadas, as sementes crioulas. Essa mudança de foco na alimentação gera uma insegurança alimentar, pois dentro do sistema de monoculturas, a saúde do consumidor e a boa qualidade dos alimentos não estão dentro da demanda que tem sido atendida pelo agronegócio. (LAMIR, 2017)


Em suma, a falta de preocupação em relação a qualidade e quantidade dos alimentos produzidos em nosso país tem gerado instabilidade econômica e social, além de ser voltada para a exportação de produtos, não suprindo as necessidades da própria população e mantendo os níveis de pobreza e falta de acesso a alimentação ainda muito presentes. Além disto, os alimentos passaram a ter baixa qualidade e a necessidade de venda e lucro como principal viés para produção fica explicito a partir do momento em que ocorre a necessidade de utilizar sementes geneticamente modificadas com excesso de agrotóxico para atingir a demanda de outros países, desconsiderando um dos principais direitos de qualquer cidadão (THUSWOHL, 2013):


O acesso a uma alimentação saudável, rica em nutrientes que atendam às necessidades fisiológicas do corpo humano, sem o risco de ingestão de produtos químicos ou transgênicos, que podem desencadear processos danosos à saúde humana (câncer, deformações, alergias etc.). (IDEC, 2021)


Em meio a tudo isso, não podemos esquecer que esse problema é secular, pois a monocultura foi inserida em nosso país com a colonização, desde a chegada dos portugueses, e as imposições europeias para suprir as necessidades de suas monarquias (portuguesa, inglesa, holandesa, francesa, espanhola), a partir das monoculturas de café, cana-de-açúcar, fumo etc., também conhecidos como plantacions. Com o passar dos anos esse novo modo de cultivo introduzido pelos europeus na nova colônia – Brasil -, foi evoluindo até chegar aos dias de hoje, em que a transgenia, com todos os prejuízos que pode causar, está sendo utilizada como “solução”, novamente, para atender às necessidades de outros países, não só europeu, mas, também, asiático, árabe e estadunidense. (ELTIS, 2016; AMBRÓSIO, 2014)



A quantidade da produção de alimentos no Brasil, passou a ser medida em toneladas, e ultrapassou a preocupação com o nível de qualidade do que está sendo produzido. A preocupação com a alimentação da população foi trocada pela economia, onde a dolarização, ou seja, as transações financeiras (compra e venda) baseada no valor do dólar, moeda estadunidense, imposta ao mercado financeiro mundial, promove altos índices de lucratividade ao agronegócio. (BARROS, 2019)


Por outro lado, a transgenia, com o auxílio da Engenharia Genética, representa uma falsa evolução na produção de alimentos, já que promove, como vimos acima, custos ambientais altíssimos, às vezes irrecuperáveis, além da insegurança no nível da qualidade do alimento que a população tem acesso, o que nos faz refletir e questionar:


Até que ponto os recursos científicos e tecnológicos serão usados contra a população e, em que medida, a ética está presente nos meios de produção agrícola em nosso país?




[1]Estudante do 5º período no Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da UNEB/DEDC/Campus VIII – Paulo Afonso.



REFERÊNCIAS