SUPERMICRÓBIOS . De quem é a responsabilidade por sua existência?

XAVIER, Josilda B. Lima M[1].

Universidade do Estado da Bahia - UNEB



Quando se trata de doenças que acometem, indistintamente, pessoas de todas as classes sociais, como por exemplo doenças de origem congênita (Síndrome de Down, Sífilis, Rubéola etc.) ou hereditária (Câncer, Hipertensão arterial, Diabetes mellitus etc.) ou mesmo pandêmicas (Covid-19), há um envolvimento das empresas da Big Pharma, de modo a encontrar solução para o problema apresentado. Entretanto, não vemos empenho similar quando se trata de infecções que acometem, principalmente, a população de baixa renda ou periférica.


Hoje, 24/11/2021, é o último dia da Semana de Conscientização Antimicrobiana, conduzida pela Organização Mundial de Saúde – OMS, na qual foram discutidos os graves problemas sanitários oriundo de um mundo constituído por desigualdades socioeconômicas abissais entre as populações humanas dos mais de 190 países que fazem parte da Organização das Nações Unidas – ONU.


Em um mundo insalubre, onde metade da população não tem sistemas de saúde adequados, o desastre planetário das bactérias está no foco da OMS, destacando a campanha de “conscientização da resistência antimicrobiana” (AMR na sigla inglesa). “Os antibióticos estão perdendo a eficácia”, adverte a médica argentina Pilar Ramon-Pardo, coordenadora da AMR na Opas (OUTRA SAÚDE, 2021), o que significa que as bactérias estão ficando cada vez mais resistentes, se constituindo nas superbactérias, mais uma ameaça gravíssima a sociedade contemporânea.


Pesquisas ocorridas em 2016 já evidenciavam a predisposição genética de alguns tipos de bactérias se tornarem resistentes, a partir da identificação de genes bacterianos responsáveis por conferir resistência a determinadas drogas e antibióticos. Equipes de pesquisadores chineses descobriram, em novembro de 2015, um novo gene, o mcr-1, que confere resistência a colistina (antibiótico de última escolha para o tratamento de infecções bacterianas). Com base nessa investigação, os pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da USP constataram a presença desse gene em suas amostras laboratoriais. (MONTEIRO, 2016)


“A resistência de microrganismos aos antibióticos é uma das maiores ameaças à saúde global atualmente. O aumento no número de bactérias resistentes aos medicamentos, chamadas popularmente de superbactérias, coloca em risco a saúde de humanos e de animais. O problema está associado diretamente ao uso excessivo e incorreto dos antibióticos disponíveis.” (ROCHA, 2021) (Grifo nosso)


A insalubridade prevalente nas periferias de todos os países, inclusive nos chamados países centrais ou de 1º mundo (França, Inglaterra, Estados Unidos etc.), nos aglomerados onde escondem os imigrantes indesejáveis, se caracteriza por esgotos a céu aberto, falta de água potável e moradias sem ventilação, construídas em espaços minúsculos com pouco distanciamento entre as casas, como é característico nas favelas brasileiras.


As desigualdades também são evidenciadas e causam danos, muitas vezes irreversíveis, devido à falta de acesso a sistemas de saúde, a antibióticos que salvam vidas e implementação de planos para responder à resistência antimicrobiana (AMR).


“Em países de baixa e média renda (LMICs), onde as pessoas já enfrentam uma carga desproporcionalmente alta de doenças infecciosas, incluindo tuberculose, HIV e malária, as consequências das infecções resistentes a antibióticos ameaçam se tornar catastróficas para um indivíduo, família, e nível da comunidade[2]” (GOLDBERG; CLEZY; JASONVSKY; UYEN-CATERIANO, 2021).


Um questionamento que os autores Goldberg; Clezy; Jasonvsky; Uyen-Cateriano (2021) fazem, aponta e destaca os aspectos que impactam e potencializam a “produção” de supermicróbios:


“Dado que o progresso com novas tecnologias caras é feito em países de alta renda, e que a arquitetura global de segurança da saúde favorece os ricos em vez dos pobres, como podemos garantir que todas as pessoas tenham acesso aos medicamentos; diagnósticos; infraestrutura de água, higiene e saneamento; e profissionais de saúde de que precisam para reduzir o impacto da silenciosa pandemia de AMR?” (Grifo nosso)


Segundo a OMS, pelo menos metade da população mundial não consegue obter serviços essenciais de saúde, de acordo com um novo relatório do Banco Mundial e da OMS, o que não é de estranhar já que, a grande maioria dos países, não tem instituído como política pública, um sistema público de saúde, como o SUS. E, a cada ano, muitas famílias estão sendo empurradas para a pobreza porque precisam pagar pelos cuidados de saúde do próprio bolso (WHO, 2017).


Se, por um lado há enorme preocupação dos infectologistas em relação ao aumento da pobreza e, com isso, maior probabilidades que doenças infecciosas se alastre, em virtude das condições de vida de milhões de pessoas em todo o mundo, o fator pandemia que tem sido enfrentado pela humanidade há 21 meses, está sendo determinante para o surgimento de superbactérias.


No Brasil e no mundo, pesquisas tem atestado que com a pandemia Covid-19, o aumento do uso de antibióticos nos hospitais, tem sido exagerada, e, segundo a Fiocruz, a detecção de bactérias resistentes a antibióticos, no mínimo, triplicou durante a pandemia, de acordo com “estudo feito com base em amostras recebidas pelo Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz” (IOC/Fiocruz, 2021).


Com a emergência sanitária no Brasil, provocada pela Covid-19, o número de pacientes internados em estado grave por longo período, mais suscetíveis ao risco de infecção hospitalar, aumentou exponencialmente, juntamente com o “uso de antibióticos, o que eleva a pressão seletiva sobre as bactérias” (IOC/FIOCRUZ, 2021; FIORAVANTE, 2019). Diante dessa realidade, a chefe do Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar, Ana Paula Assef, afirma que:


“É um cenário que favorece a disseminação da resistência, agravando ainda mais um problema de alto impacto na saúde pública. Chamar a atenção para esse dado é fundamental, uma vez que o uso indiscriminado de antibiótico prejudica o tratamento de uma série de doenças bacterianas. As infecções causadas por superbactérias geralmente são associadas à alta mortalidade” (IOC/FIOCRUZ, 2021). (Grifo nosso)


Lamentavelmente, inversamente proporcional ao aumento de casos de infecções com bactérias resistentes, superbactérias, ao tratamento com antibióticos convencionais, há uma diminuição de interesse por parte dos governos e das indústrias farmacêuticas, Big Pharma, em promoverem pesquisas que possam resolver o problema.


“O mundo ainda não está conseguindo desenvolver tratamentos antibacterianos desesperadamente necessários, apesar da crescente conscientização sobre a ameaça urgente da resistência aos antibióticos, de acordo com relatório da Organização Mundial de Saúde. A OMS revela que nenhum dos 43 antibióticos que estão atualmente em desenvolvimento clínico abordam suficientemente o problema da resistência aos medicamentos nas bactérias mais perigosas do mundo” (WHO, 2021). (Grifo nosso)


Segundo o economista Jim O’Neill, a resistência aos antibióticos pode impactar diferentes áreas além da saúde. “Conforme minha análise mostrou, terminaremos com pelo menos 10 milhões de pessoas morrendo por ano devido à resistência aos antimicrobianos até 2050, e uma perda colossal do PIB. A experiência da Covid-19 em 2020 e 2021 mostra o que pode acontecer” (ROCHA, 2021).


A terrível previsão explicitada acima, se relacionada com o observado no Brasil pela Fiocruz em seus estudos, ao afirmar ter “estudado três vezes mais amostras de bactérias resistentes a antibióticos, durante a pandemia”, e que os “pesquisadores registraram cerca de mil amostras em 2019, depois quase 2 mil micróbios, em 2020, e em 2021, até outubro, 3,7 mil amostras vindas de diversos estados” (DIEGUEZ, 2021), não é algo que fica apenas no “imaginário”, é real.


Diante do quadro apresentado, é importante estarmos atentos ao que afirma Dra. Ana Paula Assef (infectologista):


“Bactérias como Acinetobacter e Pseudomonas são oportunistas, causam infecções em pacientes internados, com saúde debilitada. Quando esses microrganismos apresentam resistência, muitas vezes, não se consegue controlar a infecção e há risco de óbito. Esse já era um grande problema antes da Covid-19 e, agora, estamos evidenciando uma piora neste quadro” (COSTA, 2021).


Segundo Dra. Pilar Ramon Pardo do Programa Especial de Resistência Antimicrobiana (AM) da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), existem duas questões importantes para governos e sociedades observarem, no sentido de evitar o que está sendo previsto em relação às superbactérias (HENDERSON, 2021):


i) O manuseio inadequado de antimicrobianos e o uso indevido ou excessivo em humanos ou animais são os principais fatores para a resistência aos antimicrobianos. Os dados de consumo de antibióticos mostram que existe uma grande variedade de comportamentos entre os países. Mas os dados apontam de forma consistente a necessidade de ações para garantir o uso adequado de antibióticos. Isso inclui a aplicação de políticas de prescrição e implementação de programas de controle de antimicrobianos.


ii) Junto com profissionais de saúde humana e animal, os indivíduos também podem ajudar a