Por que a diminuição de polinizadores é uma ameaça global?

SILVA, Maria Lorena da[1]

MENDES, Carlos Henrique Tavares[2]

CENTEIO-ALVARADO, Diego[3]

Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE



Provavelmente você que está lendo este texto já assistiu algum filme da Disney, quadrinhos, jornais, ou nos meios de comunicação em geral, histórias sobre insetos e animais que estão sofrendo com a diminuição de suas populações, além de estarem sentindo os efeitos danosos das ações do homem sobre o ambiente. Por vezes, quando os filmes de animações trazem essas histórias existe uma certa romantização destas ações e certamente você acabou se encantando da forma que essas histórias são narradas pelos roteiros fantasiosos e por vezes mágicos deste tipo de entretenimento.


Mas, você já parou para pensar que tudo aquilo representado nos filmes pode estar acontecendo na vida real? Pois é, apesar de ser um assunto muito debatido, pouco voltamos nosso olhar para tal situação, sendo o foco atual o desflorestamento e aquecimento global, e esquecemos que a defaunação (declínio de espécies de animais) é um grande problema atual e que tudo está interligado (ECCO, 2015).


Estudos já mostram que a defaunação, resultado da ação humana, como a caça, poluição, mudanças climáticas, desmatamento e aumento da extensão das cidades, ou qualquer ação que abranja o habitat natural de espécies de animais, tem provocado a diminuição acelerada dos mesmos, abrangendo animais de grande até pequenos porte (DIRZO et al., 2014; ECCO, 2015), como os polinizadores, que é o exemplo que vamos usar aqui para mostrar um pouco sobre os efeitos negativos que a diminuição de espécies de animais tem trazido não só para o ambiente, mas também para a sociedade e a economia.


Além do mais, você já deve ter presenciado ou até ouvido falar sobre defaunação desses polinizadores indiretamente, podemos usar exemplos mais simples do nosso cotidiano, mas que possuem grandes impactos. Você já deve ter escutado algumas pessoas falarem “acabei de derrubar/queimar um inchu de abelha”, “uma borboleta preta traz azar e precisa ser morta”, entre outros. Na ficção, como os desenhos animados, também temos alguns exemplos, ao quais passam despercebidos por serem demonstrados de forma indireta, como no filme de desenho animado “Bee movie”, onde o roteiro expressa de forma fantasiosa a realidade que muitos polinizadores estão enfrentando nos habitats naturais. O que muitas pessoas não sabem é que esses insetos e animais que desenvolvem importantes serviços ecossistêmicos, principalmente os que produzem alimentos que chegam até a sua mesa (OLLERTON; WINFREE; TARRANT, 2011), estão desaparecendo.


Contextualizando brevemente, a polinização é uma forma de reprodução sexual da maioria das plantas, onde o material genético é transferido de uma planta para outra por uma partícula chamada pólen, que resulta na fertilização e gera sementes e frutos (POTTS et al., 2014). As espécies de animais polinizadores são, em sua maioria, animais pequenos, como os insetos: abelhas, moscas, borboletas etc. Mas, vale a pena ressaltar que há polinizadores vertebrados, como aves, morcegos, mamíferos não voadores, lagartos e muitos outros (RAMIRO, 2019).


Imaginamos que você deve estar se perguntando: “Até o desaparecimento de animais tão pequenos pode causar tanto prejuízo assim?” E nossa resposta é bem clara: SIM. A polinização, em sua grande maioria, é realizada por insetos (abelhas, moscas, borboletas e entre outros) (POTTS et al., 2014).


A polinização é um serviço regulatório do ecossistema, uma interação ecológica que traz benefícios ambientais, sociocultural e econômico, como já citado brevemente mais acima, que incluem a variabilidade genética de populações de plantas que mantêm a biodiversidade e as funções ecossistêmicas, garantindo o fornecimento confiável e diversificado de medicamentos, frutos, sementes, mel, e outros alimentos, além da promoção de valores culturais relacionados aos conhecimento tradicionais (IPBES 2016; COSTANZA et al., 2017).


A figura abaixo mostra o conhecimento que se têm de estudos levantados até agora sobre a polinização de plantas utilizadas como alimentos no Brasil, divulgados no Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil” de 2019, e que de 298 plantas cultivadas ou silvestres,66 % (200 plantas) foram estudadas quanto à sua polinização, demonstrando a porcentagem de cultivos polinizados por cada grupo de polinizador, e quase todos eles são insetos (BPBES, 2019). Supõe-se que só a população de insetos é responsável pela polinização de 75 % das safras de alimentos mundiais, 10% do valor econômico mundial (DIRZO et al., 2014).



A maioria das principais culturas globais depende da polinização por animais para gerar frutos e sementes, portanto, o declínio dos polinizadores pode comprometer negativamente a produção global de alimentos (KLEIN et al., 2007). Estima-se que o valor econômico anual global da polinização por insetos teria sido 153 bilhões durante 2005 (ou seja, 9,5% do valor econômico total da produção agrícola mundial, considerando apenas as safras que são usadas diretamente para alimentação humana (POTTS et al., 2010). Como podemos observar na próxima figura, só aqui no Brasil, 76% das plantas alimentícias, são dependentes de polinizadores, e 66% delas são polinizadas por abelhas (BPBES, 2019).


Alguns estudos vêm mostrando que a diminuição de abelhas, que como acabamos de ver, são importantes polinizadores de plantas silvestres e culturas agrícolas, onde houve uma diminuição em aproximadamente 96% e sua distribuição geográfica foi reduzida entre 23 e 87% (CAMERON et al., 2011). Isso pode gerar grandes perdas na produção agrícola, uma vez que são importantes para safras multibilionárias como tomate e frutas vermelhas (CAMERON et al., 2011).


Algumas medidas vêm sendo tomadas para evitar a perda desses polinizadores, e o Brasil tem contribuído com discussões sobre a importância da polinização tanto no cenário nacional, quanto no internacional. Podemos observar alguns marcos e iniciativas históricas, como a reunião da “Conservação e Uso Sustentável dos Polinizadores na Agricultura, tendo ênfase nas abelhas” em 1998, como resultado desta reunião, foi produzido o documento “The São Paulo Declaration on Pollinators” (DIAS et al., 1999). Este documento tinha como objetivo principal, firmar um compromisso com a Conversão Sobre a Diversidade Biológica (Convention on Biological Diversity - CBD), para assegurar a importância dos polinizadores para a construção de uma agricultura sustentável e diversa, dentro do programa temático da área (BPBES, 2019).


Ainda, em decorrência desse processo, foi criado em 2000 e aprovado em 2002, a Iniciativa Internacional para a Conservação e o Uso Sustentável dos Polinizadores (IPI), ao qual tem como facilitadora a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), e iniciativas regionais, como a Iniciativa Brasileira dos Polinizadores (IBP), que vem trabalhando para preencher lacunas do conhecimento sobre polinização no país (BPBES, 2019), entre outras iniciativas.




Autores:

[1] Maria Lorena da Silva – Mestranda em Etnobiologia e Conservação da Natureza/3° Semestre – PPGEtno – UFRPE. [2] Carlos Henrique Tavares Mendes - – Mestrando em Etnobiologia e Conservação da Natureza/3° Semestre – PPGEtno – UFRPE. [3] Diego Centeno-Alvarado – Doutorando em Etnobiologia e Conservação da Natureza/3º Semestre – PPGEtno – UFRPE.




REFERÊNCIAS


BOSCOV, Isabela. Bee movie - A história de uma abelha. Veja, 11 jan. 2017. Disponível em: https://veja.abril.com.br/blog/isabela-boscov/bee-movie-a-historia-de-uma-abelha/ Acesso em 18 dez. 2021.


CAMERON, S. A. et al. Patterns of widespread decline in North American bumble bees. PNAS, v. 108, n. 2, p. 662-667, 2011.


COSTANZA R et al. The value of the world’s ecosystem services and natural capital. Nature, v. 387, p. 253–260, 2017.


DIAS, B. S. F. et al.. International Pollinators Initiative: The Sao Paulo Declaration on Pollinators. Brazilian Ministry of the Environment, Brasilia, 1999.


DIRZO, R. et al. Defaunation in the Anthropocene. Science, v. 345, n. 6195, p. 401-406, 2014.


ECCO. O que é Defaunação. 5 de janeiro de 2015. Disponível em:https://oeco.org.br/dicionario-ambiental/28854-o-que-e-a-defaunacao/#comments. Acesso em 18 dez. 2021.


HORTIBIZ DAILY. Australian government backs bumblebee pollination of crops. Hortibiz Daily, 11 nov. 2020. Disponível em: https://www.hortibiz.com/newsitem/news/au-govt-backs-bumblebee-pollination-of-crops/ Acesso em 18 dez. 2021.


IBERDROLA. Alerta! Os polinizadores naturais estão em perigo. IBERDROLA. Disponível em: https://www.iberdrola.com/sustentabilidade/polinizadores-em-perigo-de-extincao Acesso em 18 dez. 2021.


INSTITUTO DE ENGENHARIA. Agricultura brasileira é dependente de polinizadores ameaçados de extinção. 11 fev. 2019. Disponível em: https://www.institutodeengenharia.org.br/site/2019/02/11/agricultura-brasileira-e-dependente-de-polinizadores-ameacados-de-extincao/. Acesso em 18 dez. 2021.


KLEIN, A. M. et al. Importance of pollinators in changing landscapes for world crops. Proc. R. Soc. B., v. 274, n. 1608, p. 303-313, 2007.


OLLERTON, J.; WINFREE, R.; TARRANT, S. How many flowering plants are pollinated by animals? Oikos, v. 120, n. 3, p. 321-326, 2011.


PIXABAY. Disponível em: https://pixabay.com/pt/. Acesso em 18 dez. 2021.


POTTS, S. G. et al. Global pollinator declines: trends, impacts and drivers. Trends in ecology & evolution, v. 25, n. 6, p. 345-353, 2010.


POTTS, S. G. et al. Crop pollination. Encyclopedia of Agriculture and Food Systems, p. 408-418, 2014.

RAMIRO, Juliana. Polinizadores são fundamentais para a agricultura e produção de alimentos. 23 Maio de 2019. Disponível em: https://boaspraticasagronomicas.com.br/artigos/polinizadores/. Acesso em 18 dez. 2021.


REVISTA CAMPO & NEGÓCIOS. Polinização do tomate: O uso de abelhas otimiza a operação. Revista Campo & Negócios, 11 ago. 2020. Disponível em: https://revistacampoenegocios.com.br/polinizacao-do-tomate-uso-de-abelhas-otimiza-operacao/ Acesso em 18 dez. 2021.


WOLOWSKI, M.et al. Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil. 1ed. Editora Cubo, São Carlos, SP, 2019.






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