MENSTRUAÇÃO. O que é preciso saber?

XAVIER, Josilda B.L.M[1]

Universidade do Estado da Bahia – UNEB



Fêmeas, Homo sapiens sapiens, menstruam há milhares de anos. Esta é uma afirmação tão óbvia que, reafirmá-la em pleno século XXI, nos parece ridículo. Entretanto, nos últimos tempos, parece fundamental abordar um tema tão importante quanto instigante, já que a menstruação, um processo biológico/natural feminino, ainda é tratada como um fenômeno que deve ser invisibilizado social e culturalmente.


Menstruar é uma característica humana, raríssima entre os mamíferos. Menstruam as mulheres, “as” chimpanzés, as fêmeas de algumas espécies de morcegos e do musaranho-elefante, animal africano do tamanho de um rato. Enquanto nas demais espécies a camada que reveste a parte interna do útero (endométrio) é absorvida no fim de cada ciclo, e a fase fértil exibida por meio de inchaço dos genitais externos, alterações comportamentais e odores que atraem os machos, nas mulheres a ovulação é mantida em segredo. O único sinal visível de fertilidade é o sangramento vaginal, estrategicamente exposto nos dias em que não há óvulos a fecundar” (VARELLA, 2020). (Grifo nosso)


O ciclo menstrual não é, portanto, exclusividade da espécie humana. Por causa de nossos ancestrais em comum, outros grandes primatas também têm que lidar com o sangramento, como por exemplo, orangotango, bonobos, gorilas e chimpanzés (PATRÍCIA, 2014). (Grifo nosso)


Biologicamente, na mulher, a menstruação é o resultado de um processo, no qual hormônios produzidos no cérebro (FSH e LH) estimulam os ovários a produzirem estrógeno e progesterona que estimulam a ovulação (liberação de ovócito(s)) e a proliferação/preparação da cavidade uterina (endométrio), para criar um ambiente propício a receber um embrião (produto das primeiras modificações de um ovócito fecundado), caracterizando o início de uma gravidez.


Se não houver fecundação do ovócito liberado, os níveis hormonais (progesterona e estrógeno) caem e o tecido que proliferou dentro do útero descama (endométrio), se desprendendo da parede do útero, formando a menstruação, possibilitando que o corpo da mulher possa se preparar para um novo ciclo, em média, a cada 28/30 dias.


Portanto, a menstruação é a descamação do endométrio (tecido que reveste, internamente, o útero) que ocorre de forma cíclica, como consequencia da não fecundação do ovócito liberado de um dos ovários, a cada mês, originando o nome recebido, designação em latim que é feita “com recurso a expressões relacionadas com a sua regularidade mensal (menses, menstruum, menstrua, menstruus sanguinis, menstruae purgationes)” (MELO; FERNANDES; PINHEIRO, 2021).


Apesar de sua coloração, o sangue menstrual é bem diferente do sangue venoso, principalmente quanto à sua composição e propriedades físicas, sendo constituído de uma mistura de sangue, tecido endometrial proveniente da preparação do útero para a gravidez, secreções vaginais, secreções do colo do útero e de lactobacilos que constituem a microbiota vaginal, que é natural de toda mulher. (PATRICIA, 2018; SANTOS, s/d)


As células do sangue menstrual têm sido cultivadas em laboratórios, onde pesquisadores identificaram que há células-tronco, essenciais para as terapias celulares. As CeSaM (células mesenquimais do sangue menstrual) são fontes de células adultas mais acessíveis do que as até então mais usadas nas pesquisas científicas e terapias celulares, como a medula óssea, o cordão umbilical, a placenta. (MANICA, s/d).


Menstruação como fenômeno cultural


A puberdade, período que marca a transição da infância para a fase adulta, é demarcada em sua fase final pela menarca, que é a primeira menstrução da mulher. Essa fase é acompanhada por muitas mudanças fisiológicas e emocionais. Portanto, é preciso estudar, conhecer a menstrução, não apenas como um fenômeno biológico, mas, também, como fenômeno que trás em si, marcas da diversidade cultural onde as mulheres estão inseridas.


Entretanto, algo parece ser comum à cultura ocidental: tratar a menstrução, fluxo sanguíneo que sai do corpo feminino, como algo que deva ser negado, invisibilizado, “coisa do privado, acontecimento segredado, coisas de mulheres” (FÁVERI, VENSON, 2007).


“Mulheres menstruadas tornam o leite azedo e as sementes estéreis (…) O olhar delas faz o espelho opaco, cega as lâminas, tira o brilho do marfim” era assim que o pensador romano Plínio, o Velho, defendia que nada poderia ser mais nocivo do que o fluxo menstrual (PATRÍCIA, 2018).


Na Idade Média, é importante lembrar, o corpo humano ainda era pouco conhecido, e o da mulher, menos ainda. Desse modo, muitos mitos, preconceitos e ações misóginas eram “naturais” entre a população, levando a concepções estapafúrdias, como exemplifica Patrícia (2018):


Ø Doença mensal: Na visão da medicina, da época, a menstruação era uma doença mensal que as mulheres desenvolviam;


Ø Sangria obrigatória: Os médicos e enfermeiros da época achavam que se aquela sobra de sangue não saísse, a mulher poderia adoecer seriamente. Então, costumava-se misturar “água de pepino” e leite que servia para encharcar um pedaço de algodão que era inserido na vagina. Se não resolvesse, antes de pensar em gravidez, eles achavam que a sobra de sangue deveria ser tirada direto na veia, então, praticava-se a sangria. Essa técnica consistia em fazer um corte em uma veia do braço e deixar o sangue jorrar até quando a pessoa se sentisse fraca;


Ø Queimaduras na pele do pênis: Ter relações sexuais durante o período menstrual era uma coisa totalmente desencorajada. Desde cedo, as pessoas aprendiam que o “sangue mensal” era venenoso e tóxico que em contato com a pele do pênis, causaria queimaduras. Então todos os homens evitavam uma mulher sangrando;


Ø Filhos ruivos: Apesar dos homens da época crescerem sabendo que deviam evitar uma mulher menstruada, alguns maridos procuravam suas esposas nesses dias. Era raro, mas acontecia, e elas, totalmente submissas jamais negavam. Acreditava-se que se uma mulher engravidasse durante o período menstrual, o filho seria ruivo. Assim, todas as crianças ruivas da época, eram apontadas como filhos de mulheres que tiveram relações sangrando.


Sobre a forma como o corpo feminino tem sido tratado ao longo dos séculos, chama a atenção o fato de que, “apesar de o corpo feminino ser exposto no discurso dos poetas, dos médicos, dos políticos, as próprias mulheres não falam dele” (Perrot, 2003) e, no que diz respeito a menstruação, na maioria das vezes, se referem usando metáforas, tais como:


“o chico”, “o boi”, “tá com a boiada”, “ficou mocinha”, “assistida”, “está assistindo”, “tava naqueles dias”, “regra”, “bandeira vermelha”, “o mês”, “veio hoje”, “eu vim” (...) e tantas outras formas de disfarçar a menstrução. Para Fáveri e Venson (2007), “percebem-se estratégias de esconderijo, uma teia de significados e linguagem entendida por elas, códigos apreendidos e reproduzidos, falados em voz baixa (FÁVERI; VENSON, 2007). (Grifo nosso)



Menstruação como fenômeno social


Diante do exposto, é evidente que não é possível considerar a menstruação apenas um fenômeno biológico, um fato natural simplesmente. É preciso, portanto, considerar a menstruação como um fato social, marcado pela cultura e representações que as mulheres constroem sobre seus corpos, e particularmente sobre a menstruação, inseridas num contexto social e cultural mais amplo. Fáveri e Venson (2007), destacam que “as transformações do corpo feminino na adolescência são marcadas por murmúrios de mãe para filha e que se perdem em seus pudores, e a primeira menstruação é uma surpresa vivida quase sempre no medo e na vergonha”. (Grifo nosso)


Essa é uma realidade que é preciso ser modificada a partir da realização de conversas, diálogos, sem subterfúgios, na família, entre amigos e na escola.


Além de conhecer a menstruação como o fenômeno biológico e como a cultura tem imposto às mulheres menstruadas situações constrangedoras e desqualificantes, é preciso dar ênfase à importância da sociabilidade da mulher (trabalho, esporte, viagem, escola/universidade etc.) que o uso de absorventes proporciona, graças a Mary Beatrice Davidson Kenner, mulher negra, norte-americana,


“criadora do primeiro modelo de absorvente que se tem conhecimento e, como diversas outras mulheres, teve sua história silenciada pela sociedade patriarcal. (...) A alternativa criada por Mary Beatrice para ajudar as mulheres a passar pelo período menstrual deu origem ao que se conhece hoje como absorvente. O objeto era uma espécie de cinto para os chamados guardanapos sanitários - produto utilizado até a década de 60. Com o recurso, as chances de sofrer com um vazamento eram consideravelmente reduzidas. Dito isto, não demorou para que as mulheres aderissem ao primeiro absorvente de todos os tempos”. (SÓ DELAS, s/d). (Grifo nosso)



O fato de o sistema capitalista ser o definidor dos hábitos de consumo da população em geral, a compra e uso regular do absorvente são, também, definidos pela condição socioeconômica das mulheres.


Há alguns anos, a luta político-social de movimentos sociais e de mulheres, vem denunciando e buscando alternativas para solucionar o problema grave de Saúde e falta de Saneamento Básico (banheiro, água encanada, água potável, esgoto), da população feminina vulnerabilizada que não têm acesso a higiene e uso de absorvente, quando estão menstruadas.



Milhares de meninas, jovens adolescentes, em estado de pobreza, deixam de frequentar a escola, quando estão menstruadas, por não terem acesso às condições mínimas de higiene e pela falta de acesso ao absorvente. Para conter a menstruação, o uso de papel jornal, papel higiênico, miolo de pão, pedaços de pano ou folhas de árvores são usados de forma improvisada no lugar de um absorvente. (LIMA, 2021).


Lima (2021), destaca que “desde 2014, a Organização das Nações Unidas (ONU) considera o acesso à higiene menstrual um direito que precisa ser tratado como uma questão de saúde pública e de direitos humanos”. No Brasil, foi instituído o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual - Lei 14.214/21 -, fruto de projeto de lei (PL 4968/19) de autoria da deputada Marília Arraes (PT-PE), aprovado em agosto pela Câmara dos Deputados e em setembro pelo Senado Federal.


Infelizmente, o presidente Jair Messias Bolsonaro VETOU os principais pontos da proposta aprovada pelos parlamentares. Com os vetos, o programa para combater a chamada precariedade menstrual – ou seja, a falta de acesso a produtos de higiene no período da menstruação – passou a prever apenas campanha informativa sobre a saúde menstrual.