LETRAMENTO CIENTÍFICO - DESAFIOS E PROPOSIÇÕES PARA PROFESSORES(AS) DE CIÊNCIAS E BIOLOGIA[1 ]


Por: Edição - Josilda B. L. M. Xavier[2]

Universidade do Estado da Bahia – UNEB

A instrumentalização do desconhecimento de conceitos científicos, especificamente das Ciências Biológicas, por parte da população em geral, tem sido uma prática recorrente para a divulgação de fake news relacionadas a conteúdos/conhecimentos cujas evidências são aceitas pela comunidade científica em todo o mundo.


Na perspectiva de provocar reflexões sobre a importância do Letramento Científico no ensino de Ciências e Biologia no Ensino Básico, a Profa. Ms. Josaline Chaves da Costa, analisa as contradições implícitas na Base Nacional Comum Curricular – BNCC adotada no Brasil, quando, segundo a professora, no texto da BNCC (2017, pág. 321) ao afirmar que “ao longo do Ensino Fundamental a área de Ciências da Natureza tem o compromisso com o desenvolvimento do Letramento Científico que envolve a capacidade de compreender, interpretar o mundo, seja ele natural, social e tecnológico, mas, também, de transformá-los com os aportes teóricos e processuais das ciências”, desvaloriza o acesso dos estudantes aos conhecimentos específicos da Biologia.


A professora Josaline Chaves da Costa, é assertiva ao destacar o que mais lhe chamou a atenção em sua pesquisa foi o fato de, “as proposições contidas na BNCC, ressaltarem a importância dos estudantes lerem e escreverem cientificamente, de serem capazes de contextualizar e não apenas repetirem, reproduzirem o conteúdo, em sua dissertação” e, contraditoriamente, “ao mesmo tempo em que cita o Letramento Científico a partir do [Ensino] Fundamental, ele [o MEC] coloca na BNCC, que o conteúdo de Biologia, não é necessário. Com outras palavras, afirma que se faz necessário o Letramento Científico, mas o conteúdo de Ciências, não. Como é possível desvincular uma coisa da outra?”


Com essa e outras questões, em entrevista ao Umbuzeiro Convida!, a professora Josaline Chaves da Costa, provoca a todas e todos, professores de Ciências e Biologia no Ensino Básico e na graduação de Licenciatura em Ciências Biológicas, sobre a importância de se desenvolver uma práxis científica-pedagógicas na perspectiva do Letramento Científico, através do qual, segundo Santos (2007), é possível o “embasamento do público para tomadas de decisão em relação a benefícios e riscos ligados à ciência e para o seu posicionamento diante dos impactos sociais e ambientais dos avanços científicos e tecnológicos (SANTOS, 2007 apud CUNHA, 2017).


A seguir, a entrevista, na íntegra, realizada pela Live Umbuzeiro Convida! do site Laboratório Criativo Umbuzeiro – Ciências no Ciberespaço (https://www.labcriatumbuzeiro.com/), via Instagram (@labcriatumbuzeiro), no dia 31/04/2022.

Card usado na divulgação da entrevista, nas mídias sociais. (Nota da Edição/2022).

Convidada - Josaline Chaves da Costa: Docente do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade do Estado da Bahia – UNEB/DEDC/Campus VIII, com especialização no Ensino e Pesquisa em Ciências Biológicas, e Mestrado Profissional em Intervenção Educativa e Social - MPIES pela UNEB. Sua atuação e experiência está centrada na área da Educação com ênfase na Formação de Professor e na Etnobotânica, atuando nos seguintes temas: BNCC, Letramento Científico, Metodologias Ativas, Ensino de Ciências e Biologia, Etnobotânica, Plantas Medicinais e Povos Indígenas. O título de sua dissertação está explicitado no tema da Live: “Letramento Científico no contexto da BNCC: Desafios e proposições para a formação do professor de Ciências Biológicas em uma Universidade Multicampi.


Mediadora – Luene Melo da Silva, graduanda no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da UNEB/DEDC/Campus VIII; monitora (editoração) do site Laboratório Criativo Umbuzeiro – Ciência no Ciberespaço (https://www.labcriatumbuzeiro.com/).

Confira a entrevista:

Luene Melo da Silva – Professora Josaline, gostaríamos de saber o que lhe motivou a realizar a investigação sobre Letramento Científico no contexto da BNCC[3] e, quais as dificuldades encontradas que lhe causaram surpresa?


Josaline Chaves da Costa – É sempre interessante falar de Ciência e divulgá-la! O que me motivou à pesquisa, foi minha história de vida e da carreira acadêmica. Ao trabalhar com disciplinas de Prática Pedagógica, principalmente, me fez acender aquela “luzinha”, quando a BNCC começou a ser discutida. A BNCC teve 3 versões, a última foi implantada, e a partir das discussões me despertou o interesse em estudá-la, principalmente quando se falou em Letramento Científico, e por estar atuando na Formação de Professor de Ciências e Biologia, na área de Educação, onde levamos os estudantes para as escolas do Ensino Básico (Ensino Fundamental II e Ensino Médio). Então, considerando que os graduandos devem estar atualizados no que diz respeito ao que é implantado na Educação, foram vocês, os estudantes, que, inicialmente, me motivaram nessa investigação.

Em relação às dificuldades encontradas durante a pesquisa, não podemos esquecer que uma investigação leva tempo, e quando envolve pessoas, no nosso caso, graduandos/estudantes universitários, precisamos estar atentos à disponibilidade de tempo daqueles que participarão da pesquisa. Assim, minha primeira dificuldade foi enfrentada no alcance do primeiro objetivo da pesquisa, que era trabalhar com dois grupos de licenciandos em Ciências Biológicas: um grupo de alunos do 3º período, e outro com alunos em um período mais avançado, no final do curso, para se fazer uma avaliação, um “feedback”, de como os estudantes estão ao nível da leitura e da escrita científica, da escrita acadêmica, quando os alunos adentram à Universidade, e quando estão mais próximos do final do curso.


Mas, o fato de os alunos estarem cursando o semestre regular, apresentou uma grande dificuldade: Como conseguir que, em meio às atividades, avaliações, seminários, inerentes ao curso, os estudantes participassem, também, do processo de uma pesquisa, no qual era exigido que o aluno se dedicasse à leitura e escrita, em um processo de Pesquisa-Ação? Eles teriam, que escrever resumos simples, resumos expandidos, exigindo um tempo de dedicação em meio às suas atividades rotineiras. Diante disso, a maior dificuldade foi com os alunos que estão no final do curso, pois eles estão mais sobrecarregados. Então, precisei mudar o público-alvo, trabalhando com graduandos do 3º e 4º períodos, considerando que estavam cursando disciplinas comigo, facilitando meu contato com eles.


Portanto, para realizar uma pesquisa junto a graduandos, que requer a dedicação de um tempo às propostas investigativas, ao mesmo tempo em que eles fazem as disciplinas do curso, é um processo que, no meu caso, dificultou a pesquisa.


Imagem ilustrativa. Não foi apresentada durante a entrevista. (Nota da Edição/2022)

LMS – Você poderia fazer um paralelo entre a BNCC e o Letramento Científico? E por que a BNCC incluiu essa capacitação nas Ciências?


JCC – Para falar da BNCC, seria interessante levar esse debate para o Auditório da UNEB (risos), porque têm muita coisa interessante para nós da Licenciatura. Na realidade, desde 1988, na própria Constituição Federal[4], têm uma previsão de uma Base Nacional Comum Curricular. Além disso, ao longo do processo de construção do Sistema Educacional brasileiro, passamos pelos PCNs, Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), que não foi obrigatório, como é hoje a BNCC.


Entretanto, no objetivo geral dos PCNs, relativo ao Ensino de Ciências, onde já tratava da leitura, da observação, da experimentação para que o aluno pudesse traduzir os processos dos fenômenos naturais, através da escrita. Então, os PCNs não tratavam do Letramento Científico, propriamente dito, mas já apontava para sua importância.


Em relação a primeira grande dificuldade apresentada, em relação a elaboração e implementação da BNCC, ocorre pelo fato de que a equipe, constituída por professores universitários, especialistas nas diversas áreas de conhecimento, que estava trabalhando nas versões 2015 e 2016, com a assunção do novo governo, após o Golpe de 2016, foi trocada por outro grupo, a partir de 2017, para atender aos interesses do novo governo. A proposta que vinha sendo trabalhada (2015 e 2016), era diferente da proposta da versão final, que incidiu, principalmente, no Ensino Médio.


Inclusive, é necessário que a Universidade pare para discutir sobre as mudanças ocorridas no Ensino Médio, a partir da implementação da nova BNCC, a partir de 2022, que interferem, ainda mais, na sua qualidade.


O conceito de Letramento Científico passou a ser tratado na BNCC (2017), da seguinte forma:


Ao longo do Ensino Fundamental, a área de Ciências da Natureza tem o compromisso com o Letramento Científico, que envolve a capacidade de compreender, interpretar o mundo, seja ele natural, social ou tecnológico, mas, também, de transformá-lo com base nos aportes teóricos e processuais das ciências.” (BNCC, 2017, pag. 321).


A partir daí, a BNCC começa a citar a importância de o aluno ler e escrever cientificamente; de contextualizar, e não apenas de repetir, reproduzir o conteúdo. Mas, ao mesmo tempo… Inclusive tem um capítulo em minha dissertação denominado “BNCC, as controvérsias do discurso”, onde destaco que, ao mesmo tempo que a BNCC cita o Letramento Científico a partir do Ensino Fundamental, é afirmado, na mesma BNCC, que o conteúdo de Biologia, não é necessário. De forma contraditória, afirma sobre a importância do Letramento Científico, mas o conteúdo de Ciências, não.


Como é possível desvincular uma coisa da outra? Essa questão nos convida a estudar mais detidamente a forma e as controvérsias da construção dessa BNCC.


Imagem ilustrativa. Não foi apresentada durante a entrevista. (Nota da Edição/2022)

LMS – Então… Porque a BNCC incluiu a capacidade do Letramento Científico na área das ciências?

JCC – Podemos trazer uma abordagem sobre o fato de que a leitura e escrita vêm, há muito tempo, se retendo mais na parte das linguagens, na disciplina Língua Portuguesa. Na universidade há maior exigência pela escrita, o que não é cobrado no Ensino Médio. Então, na minha dissertação faço o seguinte questionamento:


- O Letramento Científico está implementado no Ensino Básico, mas, o que mudou na formação do professor? Qual o tipo de capacitação e acompanhamento tem sido dado aos professores de Ciências e Biologia nas escolas, para a implementação da BNCC, tanto no Ensino Fundamental (já implementada) e no Ensino Médio, que começa este ano (2022), a partir dos 1ºs anos?

Essa questão tem feito com que eu continue a investigação, junto com meus alunos, de modo a verificar como a implementação da BNCC está acontecendo nas escolas. É interessante haver um acompanhamento, tanto para os professores de Ciências, já atuantes nas escolas, e para os licenciandos em formação, de como a verificar o que mudou com a implementação da BNCC.


O que a implementação da BNCC tem mudado, no ensino de Ciências e Biologia, e que afeta, diretamente, na formação desses professores? Esse é um novo questionamento, emergido das minhas análises, a partir das dificuldades apresentadas pelos professores no Ensino Básico e dos licenciandos em formação, no que se refere à relação entre Letramento Científico e BNCC.

LMS – Esse questionamento tem relação com a pergunta a ser feita, qual seja: Durante suas investigações você percebeu algum dano ou prejuízo com a implementação da BNCC no Ensino Médio?


JCC – As políticas públicas no sistema educacional brasileiro são implementadas de cima para baixo, sem envolver/ouvir os principais interessados, que estão em sala de aula, lidando com as dificuldades dos alunos, que são os/as professores (as). Trabalhando com disciplinas de Práticas Pedagógicas, na graduação, através das quais os licenciandos são inseridos no contexto escolar, é possível estar acompanhando, junto com os alunos, e identificar as dificuldades que as escolas públicas estão passando para implementar a BNCC no Ensino Médio. Os estudantes estão indo para as escolas, de modo a fazerem o levantamento das primeiras observações sobre a forma pela qual a BNCC está sendo implementada e, ao trazê-las para sala de aula, possamos analisar e elaborar propostas que possam amenizar a forma impositiva que a BNCC está sendo implementada pelo governo federal.

Imagem ilustrativa. Não foi apresentada durante a entrevista. Fonte: Google imagens. (Nota da Edição/2022)


Se analisarmos a BNCC do Ensino Fundamental II, do 6º ao 9º, os conteúdos foram organizados por Eixos Temáticos. Então temos: Matéria e Energia; Vida e Evolução; e Terra e Universo. Portanto, esses 3 eixos se repetem ao longo dos anos. Não existe mais a parte de Iniciação a Química e Física separados, só no 9º ano. Temos, portanto, ao longo dos 4 anos (6º ao 9º ano), o conteúdo de Biologia que vocês conhecem, com um nível de aprofundamento à medida que as séries vão avançando.


Na página do MEC[5], é possível verificar que na BNCC do Ensino Médio, há a exigência da obrigatoriedade apenas das disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática. Os professores ainda estão trabalhando com as outras disciplinas, mas com a diminuição da carga horária. No Ensino Médio, só tem duas aulas de Biologia semanais; os alunos que estão entrando no Ensino Médio são orientados a escolherem a área que eles querem estudar[6].


Aqui é importante chamar a atenção para o fato de que os alunos que estão saindo do Ensino Fundamental não têm maturidade para escolherem o que é melhor para eles em nível de conhecimento relativos às áreas de Ciências da Natureza ou Ciências Humanas e Aplicadas, já que, obrigatoriamente eles estudarão Linguagens e suas Tecnologias e Matemática. Entretanto, sem considerar a questão da maturidade dos estudantes, a partir da escolha feita, os alunos do Ensino Médio deverão ter aulas das disciplinas obrigatórias (Linguagens e suas Tecnologias; e Matemática) e, no turno oposto, aulas da área complementar (Ciências da Natureza [Biologia, Química e Física] ou Ciências Humanas e Sociais) escolhida, a partir da elaboração de projetos, oficinas etc.


Em relação a nossa área, se os alunos a escolherem (Ciências da Natureza) seria necessário que houvesse professores das áreas de Biologia, Física e Química, no turno oposto, que, ao trabalhar oficinas e projetos, façam a ponte com os conteúdos relativos às três áreas. O mesmo acontecendo para os alunos que escolhessem a área das Ciências Humanas e Sociais.


Na parte dos Itinerários Formativos, os alunos estudarão Matemática, Língua Portuguesa e Análise de texto. Na parte diversificada, chamada de Projetos de Vida, os estudantes do Ensino Médico vão estudar várias temáticas, como por exemplo, Educação financeira.


É importante destacar que, com a implementação da BNCC, foi definido que cada Estado, definirá qual o leque de opções da parte diversificada e que será disponibilizado para os alunos. Esse é um aspecto que traz mais uma controvérsia no discurso da BNCC, que foi criada afirmando que seria implementado uma BASE COMUM para tentar unificar o ensino em todos os Estados.


Os licenciandos que sairão para a realização do Estágio Supervisionado no Ensino Médio, encontrarão um ambiente confuso, com uma realidade em processo e com muitas dificuldades na sua implantação, pois até mesmo os professores apresentam dificuldades em compreender como é, de fato, essa BNCC.


É uma discussão que requer que a Universidade adentre nesses espaços, de modo que possa colaborar com as escolas, bem como no âmbito das próprias universidades, as diversas licenciaturas da UNEB/Campus VIII (Pedagogia, Matemática), para ver de que forma é possível colaborar com a discussão nesses espaços.


Imagem ilustrativa. Não foi apresentada durante a entrevista. Fonte: Google imagens. (Nota da Edição/2022)


LMS – Sem a obrigatoriedade das Ciências da Natureza e das Ciências Humanas e Sociais, como você avalia a possibilidade da concretização do Letramento Científico? (Pergunta do chat.)


JCC – Em nosso país não há o incentivo à leitura, à compra de livros. Pelo contrário! O governo federal aumentou os impostos que incidem sobre os preços dos livros. Por outro lado, com alunos universitários, onde já se faz um trabalho com a produção de projetos, com a escrita científica, encontrei grande dificuldade em desenvolver o meu projeto de pesquisa, imagine com os professores que estão atuando nas escolas e que vão trabalhar o Letramento Científico? Que ainda estão se apropriando dos fundamentos e objetivos da BNCC no Ensino Básico. Nesse contexto, os professores acabam seguindo o livro didático, selecionado, que já está com as modificações exigidas na BNCC. Seguem apenas um roteiro pronto.


O Letramento Científico deveria ser trabalhado nas escolas, contextualizando o conteúdo, para que este tenha significado, não sendo apenas trabalhado o conteúdo pelo conteúdo. Estimular o aluno, desde o Ensino Fundamental, a começar a escrever, produzir cientificamente; para não copiar, simplesmente, o que está no livro; para que o aluno exponha suas ideias, dentro do contexto do conteúdo trabalhado.


Se os professores que estão nesse processo, formando os alunos do Ensino Básico, têm dificuldade; e [outra controvérsia], a disciplina de Biologia não é obrigatória, correndo o risco de ser eliminada da grade curricular do Ensino Médio; como os professores poderão implementar o Letramento Científico, em meio a todas essas dificuldades?


Ainda há muito o que estudar! Vamos torcer para que a gente consiga mudar essa realidade em nosso país. Mas, fica, realmente, muito difícil para o professor trabalhar o Letramento Científico.

LMS – Na sua opinião, o que não pode faltar na formação do professor de Ciências e de Biologia, que auxiliaria a aplicar, em sua posterior docência, o Letramento Científico? (Pergunta do chat.)


JCC – A pandemia, exigiu que déssemos aulas remotas, o que me fez pensar como avaliar os alunos nesse contexto. A partir dessa situação, comecei a trabalhar com os alunos de forma que eles produzissem resumos simples, resumos expandidos; e, a partir de uma base teórica, de artigos que eu disponibilizava para a turma, íamos construindo os textos. Começamos com um resumo simples; para que aprendessem, em poucas palavras a elaborar um objetivo, uma metodologia; selecionar as fontes que pudessem embasar teoricamente determinada metodologia; para que soubessem diferenciar uma pesquisa qualitativa de uma pesquisa quantitativa; identificar o que é uma pesquisa-ação.


Sendo a minha pesquisa, uma pesquisa-ação, onde foi realizada uma ação, em um determinado ambiente, com o objetivo de verificar a concretização das mudanças propostas, com o uso metodológico e elaboração e aplicação de oficinas. Com as oficinas, os alunos tiveram um retorno a partir das produções de textos. Portanto, é possível colaborar, colocando os alunos no contexto da escrita, avaliando-os de forma diferenciada, no processo de sua formação.


É preciso colocar os estudantes do Ensino Básico para lerem! Vamos criar “clubes de leituras” nas escolas, discutindo conceitos a partir dos interesses dos próprios alunos e, em seguida, que eles possam escrever as ideias discutidas a partir de um livro. É preciso nos colocarmos em ação!


LMSNo seu ponto de vista, qual a importância de trabalhar o Letramento Científico, no Ensino Fundamental? (Pergunta do chat.)


JCCPaulo Freire já dizia que não basta ensinar o aluno escrever “Eva viu a uva”. É preciso ensinar ao aluno o contexto dessa “uva”, de onde vem, o histórico… Na verdade, Paulo Freire estava dizendo que não devemos simplesmente decodificar palavras, é preciso ir além. O Letramento Científico nada mais é do trabalhar com o aluno a habilidade de colocar suas ideias; a fazer nas ciências as suas observações.


No Método Científico, trabalhamos com os alunos na graduação a elaborar hipóteses, objetivos… Mas, na prática, em sala de aula do Ensino Básico, é quase inviável, devido ao formato das disciplinas e seus conteúdos estarem presos em suas “caixinhas”, da quantidade de horas/aulas, que são insuficientes, ou no excesso na carga horária dos professores, que os impedem de desenvolverem atividades de pesquisa e Letramento Científico com seus alunos.


Na avaliação do PISA[7], o Brasil está sempre em desvantagem em relação a outros países, principalmente na área das Ciências Naturais. É preciso compreender que Ciência não é reproduzir conteúdo; é preciso contextualizar.


Ao analisar as provas do ENADE[8] realizadas esse ano, por nossos alunos que estão concluindo o curso, podemos observar que foi estruturada com três questões abertas, onde os alunos tinham que contextualizar o conhecimento; não adiantava ele saber o conteúdo livresco, decorado; e, mesmo as questões fechadas, objetivas, eles tinham que ter uma compreensão do contexto da pergunta que estava sendo feita. Portanto, não adiantava saber escrever “Eva viu a uva”, era necessário ir além, buscar outros contextos que lhes auxiliassem a interpretar as questões e responder corretamente.

Imagem ilustrativa. Não foi apresentada durante a entrevista. (Nota da Edição/2022)


É de fundamental importância ensinar os alunos a serem letrados cientificamente, para que compreendam a ciência sem a reprodução livresca, decorar os conteúdos de Ciências (Organelas celulares, Complexo de Golgi etc.) Não! É ensinar o aluno ir além… Entender o contexto da célula e suas organelas, o contexto dos seres vivos. Portanto, o Letramento Científico é de fundamental importância para a formação de nossos estudantes do Ensino Básico, bem como da graduação.



[1] Título baseado na Live realizada pelo Umbuzeiro Convida! em 31/04/2022: “Letramento Científico no contexto da BNCC: Desafios e proposições para a formação do professor de Ciências Biológicas em uma Universidade Multicampi”, via Instagram (@labcriatumbuzeiro).

[2] Docente do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas/UNEB/DEDC/Campus VIII; Coordenadora e Editora do site Laboratório Criativo Umbuzeiro – Ciência no ciberespaço (https://www.labcriatumbuzeiro.com/); Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0838920937933125

[3] Base Nacional Comum Curricular - http://basenacionalcomum.mec.gov.br/

[4] No Art. 205 da Constituição Federal, a educação é entendida como “direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1988).

[5] MEC - http://basenacionalcomum.mec.gov.br/; Texto em PDF, da BNCC do Ensino Médio http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/historico/BNCC_EnsinoMedio_embaixa_site_110518.pdf (Nota da Edição/2022)

[6] De acordo com a BNCC as áreas são: Linguagens e suas Tecnologias (Arte, Educação Física, Língua Inglesa e Língua Portuguesa); Matemática; Ciências da Natureza (Biologia, Física e Química); e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (História, Geografia, Sociologia e Filosofia). (Nota da Edição/2022)

[7]Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/pisa


[8]Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE). https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/enade


REFERÊNCIA

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.

CUNHA, Rodrigo Bastos. Alfabetização científica ou letramento científico?: interesses envolvidos nas interpretações da noção de scientific literacy. Revista Brasileira de Educação v. 22 n. 68 jan-mar 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/cWsmkrWxxvcm9RFvvQBWm5s/?lang=pt&format=pdf

SANTOS, W. L. P. Educação científica na perspectiva de letramento como prática social: funções, princípios e desafios. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro: ANPEd; Campinas: Autores Associados, v. 12, n. 36, p. 474-550, 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v12n36/a07v1236.pdf








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