Feijão: fonte de proteína & “poço” de veneno?

Atualizado: Abr 26

XAVIER, Josilda B.L.M. [1]


O feijão comum é uma planta anual herbácea, trepadora ou não, pertencente à família Leguminosae, subfamília Faboideae, gênero Phaseolus. Está classificado como Phaseolus vulgaris L. O feijão comum é, segundo alguns autores, de origem sul-americana; os indígenas cultivavam ao lado do milho e da mandioca. Há autores que consideram a Ásia como centro de origem das espécies de feijão conhecidas atualmente. (A FEIRA/UFRGS, s/d).


Independentemente de sua origem, falar sobre feijão (Phaseolus vulgaris L.) faz com que nossa memória, de imediato, resgate belas recordações que todos(as) guardamos: a feijoada com a família e amigos; os bolinhos de feijão com farinha, amassados com a mão; o sabor do tutu mineiro; o aroma delicioso da dobradinha etc.; além do saboroso feijão com arroz nosso de cada dia!


Além dos sabores que a nossa memória resgata, também lembramos da riqueza de cores que o feijão se “mostra” para cada um(a) de nós: verde, preto, amarelo, branco, castanho, vermelho, pardo róseo e pintalgados.


As sementes também apresentam uma grande diversidade de formas, e podem ser elípticas, cilíndricas, ovoides, esferóides ou uniformes, de tamanho variados de acordo com suas variedades (tipos). (MOURA, 1998).


Entre os principais produtos alimentícios derivados do feijão (Phaseolus vulgaris L.) podemos citar: feijão em grão, farinha de feijão, utilizada em sopas instantâneas, feijão pré-cozido, feijão enlatado e produtos comercializados em restaurantes como sopa de feijão, salada de feijão, feijão mexido, feijoadas etc. (A FEIRA/UFRGS, s/d).


Por fazer parte de nossa fonte principal de alimento, é preciso destacar que o feijão (Phaseolus vulgaris L.) fornece “nutrientes essenciais ao ser humano, como proteínas, ferro, cálcio, magnésio, zinco, vitaminas (principalmente do complexo B), carboidratos e fibras. Representa a principal fonte de proteínas das populações de baixa renda e constitui um produto de destacada importância nutricional, econômica e social. Além de ser um dos alimentos mais tradicionais na dieta alimentar do brasileiro” (SOARES, 1996).


Diante da importância do feijão (Phaseolus vulgaris L.) para a refeição da população brasileira, é preciso acompanhar a forma como esse alimento é produzido. Assim, é assustador o que foi divulgado no artigo publicado no site Rede Brasil Atual – RDB, com o seguinte título “Feijão deverá ter muito mais agrotóxicos do que já tem atualmente”, com autoria de Cida de Oliveira, em 21 de fevereiro de 2021.


A matéria jornalística divulgada nos alerta para o fato de que, entre os “1.033 novos produtos liberados pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019, pelo menos 114 são usados nas plantações de feijão” (OLIVEIRA, 2021).


Segundo Oliveira (2021), o "agrotóxico mais encontrado no feijão foi o fungicida Carbendazim, em 457 amostras”, no período de 2013 - 2015.


É importante destacar que nas análises das amostras de feijão, realizadas, em 8 amostras havia concentrações acima do limite máximo permitido das substâncias fempropatrina, flutriafol, imidacloprido, permetrina, pimimifós-metílico, procimidona e tiametoxam. Em 48 amostras foram detectados resíduos de agrotóxicos não autorizados para uso no cultivo do feijão, entre eles o pirimifós-metílico, detectado irregularmente em 2,4% das amostras monitoradas em 2015. (OLIVEIRA, 2021).


Diante desses resultados, podemos inferir que os efeitos causados pelo Carbendazim e outros agrotóxicos são, extremamente nocivos à saúde humana. Vejamos!


“O Carbendazim tem a capacidade de atravessar a placenta, atingindo o embrião ou feto e causando diversas alterações e malformações. Está associado também à infertilidade, a disfunções nas células do fígado, do sangue e à desregulação no sistema endocrinológico. Ou seja, prejudica as glândulas que secretam os hormônios que controlam funções vitais. Sem contar efeitos nocivos ao meio ambiente”, disse o professor e pesquisador Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF (OLIVEIRA, 2021).


A Associação de Fabricantes de Agrotóxicos Genéricos, - AENDA, chama a atenção para o fato de que o fungicida mais vendido no Brasil, o Mancozebe é classificado pela Anvisa como medianamente tóxico (!). No entanto, o Instituto Nacional de Câncer - INCA, vinculado ao Ministério da Saúde, afirma que o fungicida está associado ao desenvolvimento de linfoma não-Hodgkin. Esse tumor maligno, que ataca o sistema imunológico, tem levado pessoas doentes dos Estados Unidos a processar a Bayer, fabricante do glifosato, outro princípio ativo relacionado à grave doença (OLIVEIRA, 2021).


Ainda na reportagem citada, Cida de Oliveira (2021) destaca outro agrotóxico perigoso à saúde, o inseticida Clorpirifós, classificado como altamente tóxico. Segundo o INCA, está relacionado a leucemias, linfomas não-Hodgkin e de pâncreas. Pesquisas como as da pesquisadora Barbara Demeneix, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, aponta que o princípio ativo causa danos como distúrbios hormonais, deficiência mental irreversível nos fetos e diminuição de até 2,5 pontos de QI (quociente de inteligência) das crianças.


O que estamos assistindo nos deixam, no mínimo, perplexos e muito preocupados(as)!


Sabemos que quase toda a população brasileira consome feijão (Phaseolus vulgaris L) diariamente. Portanto, são mais de 200 milhões de pessoas a consumirem feijão pulverizado com os piores e mais agressivos venenos (agrotóxicos) disponíveis no mercado, vendidos com a autorização do governo federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, que deveriam priorizar a saúde da população.


A quem interessa a liberação e uso de milhares de agrotóxicos?


O feijão “envenenado” é vendido onde (feiras livres, supermercados, mercados, quitandas etc.) e para quem (população pertencentes às classes média, média- baixa e baixa: trabalhadores) ?


Como exigir que os produtores de alimentos do nosso país produzam alimentos sem veneno?


Essas e tantas outras perguntas precisam ser respondidas, urgentemente, para que ações relacionadas em nível da qualidade dos alimentos produzidos no país, sejam realizadas em favor da saúde da população brasileira.




[1] Docente do Curso Licenciatura em Ciências Biológicas da UNEB/DEDC/CAMPUS VIII. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0838920937933125



REFERÊNCIA


A FEIRA. Feijão. A Feira – Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. s/d. Disponível em: http://www.ufrgs.br/afeira/materias-primas/leguminosas/feijao


MESQUITA, F. R.; CORRÊA, A. D. ABREU, C. M. P. de.; LIMA, R. A. Z.; ABREU, A. de F. B. Linhagens de feijão (Phaseolus vulgaris L.): composição química e digestibilidade proteica. Ciênc. Agrotec., Lavras, v. 31, n. 4, p. 1114-1121, jul./ago., 2007.


MOURA, A. C. de C. Análises físico-químicos e enzimáticas antes e após armazenamento em grãos de feijão (Phaseolus vulgaris L.) submetidos a diferentes tempos e tipos de secagem. 1998. 70 p. Dissertação (Mestrado em Ciência dos Alimentos) Universidade Federal de Lavras, Lavras, 1998.


OLIVEIRA, Cida de. Feijão deverá ter muito mais agrotóxicos do que já tem atualmente. Rede Brasil Atual – RBA. Publicado 21/02/2021. Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2021/02/feijao-devera-ter-muito-mais-agrotoxicos-do-que-ja-tem-atualmente/


SOARES, A. G. Consumo e qualidade nutritiva. In: REUNIÃO NACIONAL DE PESQUISA DE FEIJÃO, 5., 1996, Goiânia. Anais... Goiânia: UFGO, 1996. v. 2, p. 7379.



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