É possível não levar a sério as Mudanças Climáticas, e ignorar o aquecimento da Terra?

XAVIER, Josilda B.L.M.[1]

Universidade do Estado da Bahia - UNEB



Quantos planetas, além do nosso, podem abrigar a humanidade com tudo o que a Terra nos oferece?


Seremos felizes em um lugar onde não poderemos mais observar, ouvir e sentir toda a beleza que a mãe natureza nos oferece?


Quais as razões que levam alguns humanos a não levarem em consideração os alertas que milhares de cientistas, em todo o mundo, desde a década de 1970, do século XX, fazem em relação ao aquecimento global e a necessidade de a humanidade mudar o seu comportamento em relação a forma como se relaciona com o planeta que nos abriga, e que é a “casa” comum de todos/todas nós?


Segundo Erika Coppola, pesquisadora do Centro Internacional de Física Teórica de Trieste, Itália, uma das principais autoras da primeira parte do 6º Relatório do IPCC/2021, “A compreensão das alterações climáticas avançou muito nos últimos anos, tanto que hoje podemos afirmar com certeza de que o aumento das temperaturas se deve principalmente a fatores antrópicos, ou seja, à concentração de gases que alteram o clima na atmosfera” (PASSERI, 2021). (Grifo nosso)


O Relatório do IPCC/2021 chama a atenção para o fato de que o aquecimento global está se intensificando com uma taxa bastante elevada, em todos os lugares do planeta como nunca foi observado em milhares de anos. Para os pesquisadores, não resta a menor dúvida de que são os humanos que estão provocando todas as mudanças observadas.


Foi divulgado nas mídias sociais e nos telejornais, na primeira semana de agosto, a intensidade de alguns fenômenos naturais que chamaram a atenção, tais como: na Olimpíada de Tóquio, vários atletas que participaram da maratona, não suportaram o calor, desistindo da prova; moradores de ilhas Gregas, foram retirados de suas moradias, em consequência de incêndios florestais que atingiram a região por dez dias; no oeste do Canadá a temperatura chegou a 49°C causando a morte de uma centena de pessoas; três países europeus (Alemanha, Bélgica e Holanda), sofreram com enchentes violentas, o que causou a morte de mais de 200 pessoas; e, também foram observadas secas prolongadas na América do Sul. (GIRARDI, 2021; MARCONI, 2021).


Marconi (2021), destaca a complexa forma como o Relatório do IPCC é elaborado, já que, basicamente, reúne em um mesmo documento, “milhares de trabalhos sobre mudanças globais publicados ao longo dos anos para explicar o que está acontecendo com o clima e o que é preciso fazer para melhorar a situação”. E, diante dos registros analisados, o 6º Relatório do IPCC/2021, afirma de forma clara, sem qualquer resquício de dúvida, que: “é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra”. (Grifo nosso)


A forma como os humanos vem degradando o planeta, em todo o mundo, e, de modo especial no Brasil, com milhares de mineradoras destruindo florestas, desgastando montanhas, poluindo rios em Minas Gerais, Goiás, Rondônia, Pará, Amazonas em busca de minérios (ouro, cobre, nióbio, metais de terras raras[*], níquel, manganês, ferro, estanho e alumínio); desmatando e provocando incêndios na Amazônia e no Pantanal, para a produção de soja, milho, cana de açúcar, óleo de palma e produção de carne bovina (MENEGASSI, 2021; GEOSCAN, 2020; AdNORMAS, 2019; DM, 2018), não é mais possível duvidar que há alterações climáticas no planeta, e que estas poderão nos levar ao que os cientistas estão chamando de “colapso climático” (ESCOBAR, 2021).


Diante de todas as informações que têm sido divulgadas, resultantes de investigações científicas sérias, há mais de 50 anos, precisamos nos perguntar sobre as razões que têm levado as ações humanas a provocarem um provável colapso climático em nossa única casa comum, a Terra.


Entre as perguntas que devemos nos fazer, é imprescindível que nos indaguemos sobre: quais as reais necessidades que o ser humano precisa suprir, para ter uma vida de qualidade, em coletividade, com saúde física, mental e ambiental?


Toda a devastação que tem sido provocada com a mineração, o desmatamento, os incêndios, a poluição atmosférica, a desertificação, mudanças nos ciclos hidrológicos (secas, enchentes), têm beneficiado apenas a um pequeno grupo de 10 empresas que controlam toda a produção mundial, em diversas áreas, para atender às “necessidades” criadas, artificialmente, para a geração de lucros exorbitantes e de poder incomensuráveis. (LUCAS, s/d).


E, para agravar, ainda mais a situação imposta ao planeta pelas grandes e poderosas empresas, nos últimos 4 anos, ações ilegais e criminosas vem ocorrendo no Brasil, afetando ainda mais os biomas e seus diversos ecossistemas, como por exemplo os desmatamentos e mineração ilegais, grilagem de terras, expulsão dos povos originários de seus territórios etc. (MENEGASSI, 2021).


É importante lembrar que todas as ações citadas acima, somadas a produção intensiva de dióxido de carbono – Co2, a partir da queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão mineral) que geram a energia necessária para a produção excessiva de produtos que irão satisfazer o consumismo exagerado e desnecessário, imposto pelo capitalismo[**], têm provocado grandes transformações na estrutura geofísica do planeta (destruição de montanhas e serras; desvio dos cursos naturais de rios que banham várias regiões); na constituição química da atmosfera (acúmulo de dióxido de carbono – CO2, metano – CH4, CFCs, ozônio – O3, dióxido de nitrogênio – NO2, monóxido de carbono – CO); no aquecimento dos oceanos; e no derretimento de calotas polares (degelo). (FLETCHER, 2021; PRIZIBISCZKI, 2021; USP, s/d).


O 6º Relatório do IPCC, não deixa dúvidas, o Antropoceno, é a era que está sendo caracterizada por ações humanas que têm modificado profundamente o planeta Terra, com graves consequências para o sistema terrestre e todos os seres vivos que dele dependem.


É importante não esquecermos de que as ações que estão provocando o aquecimento global, são realizadas de forma consciente, já que as evidências científicas do caos que está sendo gestado, só são contestadas por um pequeno grupo de pessoas, os negacionistas, que de forma proposital, vem provocando dúvidas na população menos informada, alimentando o consumo desenfreado e desnecessário, que o sistema capitalista necessita, em sua voracidade na obtenção de lucros cada vez maiores.


A influência humana aqueceu o clima a uma taxa que não tem precedentes pelo menos nos últimos 2 mil anos”, alertam os cientistas no sumário do 6º Relatório do IPCC/2021. A temperatura da superfície global aumentou mais rapidamente desde 1970 do que em qualquer outro período de 50 anos, pelo menos nos últimos 2 mil anos. Como consequencia, teremos no Brasil, em um mundo 2ºC mais quente, o aumento das secas em áreas agrícolas e naturais na região do sul da Amazônia; no Nordeste, os cientistas apontam para um aumento dominante na duração da seca; e, para o Sudeste, é projetado um aumento da intensidade da frequência e da intensidade de chuvas extremas e inundações. (GIRARDI, 2021).


No lançamento do Resumo para Formuladores de Políticas da contribuição do Grupo de Trabalho I para o 6º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas intitulado “Mudanças Climáticas 2021: as bases das ciências físicas", a Diretora Executiva, Inger Andersen, concluiu o seu discurso, afirmando (UNEP, 2021):


Não podemos desfazer os erros do passado. Mas esta geração de líderes políticos e empresariais, esta geração de cidadãos conscientes, pode consertar as coisas. Esta geração pode fazer as mudanças sistêmicas que vão impedir o aquecimento do planeta, ajudar todos a se adaptarem às novas condições e criar um mundo de paz, prosperidade e equidade.


As mudanças climáticas estão aqui, agora.


Mas, nós também estamos aqui, agora.


E se não agirmos, quem o fará?”






[*] Terras raras são substâncias químicas usadas na indústria para a produção de diversos itens. Embora sejam abundantes, as terras raras, ou metais de terras raras, recebem esse nome por serem de difícil extração. Macias, maleáveis, dúcteis e de coloração que varia de cinza escuro a prateado, as terras raras são compostas por 17 elementos químicos, sendo eles o escândio (Sc), o ítrio (Y) e mais 15 lantanídeos: lantânio (La), cério (Ce), praseodímio (Pr), neodímio (Nd), promécio (Pm), samário (Sm), európio (Eu), gadolínio (Gd), térbio (Tb), disprósio (Dy), hólmio (Ho), érbio (Er), túlio (Tm), itérbio (Yb) e lutécio (Lu). (Fonte: https://www.ecycle.com.br/terras-raras/)

[**] O capitalismo é um sistema econômico e social baseado no direito à propriedade privada, no lucro e na acumulação de capital. A palavra capital vem do latim capitale e significa "cabeça", no qual faz alusão às cabeças de gado, ou seja, uma das medidas de riqueza, que ainda hoje é valorizada, principalmente em países subdesenvolvidos como o Brasil. (Fonte: https://www.todamateria.com.br/capitalismo/)



[1] Docente da Universidade do Estado da Bahia – UNEB/DEDC-Campus VIII, no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0838920937933125



REFERÊNCIAS


AdNORMAS. A cobiça pelo bioma e pelas riquezas minerais da Amazônia. Revista Digital Ad Normas. Editorial. Publicado em 3 de setembro de 2019. Disponível em: https://www.dm.com.br/cotidiano/2018/03/os-minerios-mais-cobicados-do-mundo/


DM. Os minérios mais cobiçados do mundo. Diário da Manhã. Publicado em 26 de março de 2018. Disponível em: https://www.dm.com.br/cotidiano/2018/03/os-minerios-mais-cobicados-do-mundo/


ESCOBAR, Herton. IPCC: se nada for feito, colapso climático é iminente. Jornal da USP. Publicado em 9 de agosto de 2021. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/ipcc-se-nada-for-feito-colapso-climatico-e-iminente/


FLETCHER, Elaine Ruth. A mudança climática pode se tornar um fator de risco global líder para a saúde. Health Policy Watch / Saúde e Meio Ambiente. Publicado em: 08/06/2021. Disponível em: https://healthpolicy-watch.news/climate-change-could-become-leading-global-risk-factor-for-health-as-world-prepares-for-milestone-climate-conference/


GEOSCAN. Saiba quais são os 8 principais minérios extraídos no Brasil. Blog – Geoscan – Mineração. Publicado em 22 de setembro de 2020. Disponível em: https://www.geoscan.com.br/blog/principais-minerios-extraidos-no-brasil/


GIRARDI, Giovana. Relatório do IPCC afirma: o aquecimento global já está aqui. Pública. Publicação em 9 de agosto de 2021. Disponível em: https://apublica.org/2021/08/relatorio-do-ipcc-comprova-o-aquecimento-global-ja-esta-aqui/