ÁRVORES - II Seres que também alimentam a Terra.

XAVIER, Josilda B. Lima M.[1]

Universidade do Estado da Bahia – UNEB



Existem uma infinidade de perguntas para serem respondidas a respeito das árvores, principalmente em relação à forma como nós, seres humanos (Homo sapiens), nos relacionamos com as representantes do Reino Plantae que têm


i) a vida mais longeva, pois algumas espécies podem viver durante alguns milênios, como o carvalho (Quercus), por exemplo;


ii) crescem a alturas inimagináveis, podendo chegar a mais de 90m, como as sequoias da espécie Sequoiadendron giganteum, nativas da América do Norte;


iii) com alta capacidade de adaptação a uma variedade de ambientes, como o semiárido (umbuzeiro - Spondias tuberosas);


iv) que produzem oxigênio, nutrientes, energia;


v) são matéria-prima para abrigo, medicamento etc.;


vi) e nos encantam com sua beleza através de suas folhas, flores, frutos e troncos.


No que se refere as características fenotípicas (aparência externa), Silva et al (2012) descreve a árvore como um ser vivo que pode apresentar tamanhos variados e que na fase madura (adulta) apresenta tecido lenhoso, com ramos secundários; sua raiz é pivotante (possui um ramo principal de onde saem raízes laterais); caule lenhoso do tipo tronco, que forma ramos bem acima do nível do solo.



Nos grandes centros urbanos, nas capitais ou megalópoles (São Paulo, Salvador, Paris, Xangai etc.), o que mais se vê são paisagens onde as árvores praticamente não existem, predominando viadutos, arranha-céus e uma infinidade de carros, serpenteando pelas avenidas, entre pequenas manchas de arvoredos.



Os gestores dos municípios brasileiros, prefeitos eleitos, parecem, em sua grande maioria, não se preocuparem com o bem-estar da população, no que se refere a criarem um ambiente agradável (sombra, flores, frutos, pássaros), com o plantio de árvores, priorizando a criação ou aumento de vias públicas que facilitem o trânsito de automóveis.


Com o solo impermeabilizado, totalmente recoberto por cimento ou asfalto, que impede a “respiração” do solo e o plantio de árvores de médio ou grande porte, propicia a criação de canteiros em praças ou jardineiras ornamentais espalhadas, com plantas de pequeno porte, na maioria exóticas (oriundas de outros lugares), que não contribuem para a refrigeração da cidade.


Quando ocorre o plantio de árvores de médio porte, os gestores fazem a opção por espécies exóticas, como por exemplo o ficus (Ficus benjamina), originário da Malásia (país do sudoeste da Ásia); e a nim (Azadirachta indica), natural do sul da Ásia. As consequências dessa prática geram graves impactos nos mais diversos âmbitos: cultural, educacional e ecológico.


Sobre alguns dos impactos causados pelo plantio de nim (Azadirachta indica), Nogueira et al (2017), chamam a atenção para o que cientistas têm alertado para os problemas ambientais associados à introdução dessa espécie em áreas do Brasil. O Nim, como é conhecido, tem ação comprovada sobre mais de 400 espécies de insetos e ácaros, causando neles redução de alimentação, repelência de postura, interrupção do desenvolvimento, da ecdise, da fertilidade, fecundidade e na fisiologia, podendo levá-los à morte (FORIM, 2006). (Grifo nosso)


A partir desse alerta, é importante não esquecermos que os insetos são os principais polinizadores de árvores/plantas frutíferas e que o desaparecimento desse grupo de animais, fará com que a biodiversidade corra sérios riscos.


Com esse cenário desumanizante, a percepção humana fica cada vez menor, indiferente, em relação a falta de árvores nativas em nosso cotidiano. Nessa condição, assistimos ao seu desaparecimento do nosso dia a dia, como algo “natural”. Se quer, paramos para pensar que nas cidades, está ficando cada vez mais difícil encontrarmos uma árvore, ornamental ou frutífera, que refresque o ambiente, e dê sombra para os transeuntes.

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A insensibilidade humana em relação as árvores, ocorre, por qual razão? Esquecemos que as árvores são seres vivos? Por quê? Vemos as árvores apenas com os “olhos consumistas”, tão bem treinados pelo sistema econômico vigente? Ou a enxergamos como um estorvo, que “suja” as ruas, que atrapalha os transeuntes em sua mobilidade frenética?


Por outro lado, o fato de o plantio de árvores nas cidades ocorrer, muitas vezes, sem serem respeitadas suas necessidades elementares (nutrientes, tipo de solo adequado às raízes etc.), e até mesmo inabilidade na hora do plantio, pode haver um processo de deterioração da qualidade ambiental e de vida da árvore, que pode levar ao enfraquecimento da raiz, exigindo o seu corte e deslocamento, de forma prematura. Lamentavelmente.


Diante do exposto, é possível tirar uma conclusão: as pessoas, de uma forma geral, conhecem muito pouco sobre as árvores e, por conhecê-las pouco, é fácil descartarem-se delas.


Na tentativa de aproximar as pessoas das árvores, a partir de algumas características, conhecendo-a um pouco mais, nesse texto procuramos tentar responder a algumas questões consideradas fundamentais:


As árvores são insensíveis? Elas se comunicam? Como essa comunicação ocorre? Elas se protegem? As árvores se estressam? Elas são solitárias?

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Suzanne Simard, professora-doutora em Ecologia Florestal da Universidade da Columbia Britânica - UBC (Canadá) e líder do Projeto “Árvore-Mãe” (UBC FORESTRY, 2021), é considerada uma das principais conhecedoras do metabolismo das árvores, no mundo científico. Para tanto, a professora Suzanne Simard, vem desenvolvendo pesquisas usando carbono radioativo para medir o fluxo e compartilhamento de carbono entre cada árvore e entre espécies; nesses estudos a pesquisadora testou teorias de como as árvores se comunicam umas com as outras.


Em 1997, Simard fez parte de uma equipe de pesquisadores que descobriram que as árvores estavam conectadas umas às outras por meio de uma teia subterrânea de fungos micorrízicos (associação entre raízes de plantas e fungos). Essa rede permite que as árvores se comuniquem transferindo carbono, nutrientes e água umas para as outras. (UBC FORESTRY, 2011)


A pesquisadora descobriu que bétulas (Família Betulaceae) e abetos de Douglas (Pseudotsuga menziesii) compartilham carbono: as bétulas recebem carbono extra de abetos de Douglas quando uma bétula perde suas folhas; e as bétulas fornecem carbono aos abetos de Douglas que estão na sombra. (SIMARD, 2021)

Eu fui designada para descobrir o motivo pelo qual alguns abetos nas plantações de árvores não estavam indo tão bem como aqueles jovens e saudáveis de florestas naturais. Quanto mais as bétulas sombreavam as mudas de abetos de Douglas, maior era a quantidade de carbono, na forma de açúcares fotossintéticos, fornecida pelas bétulas por meio da rede micorrízica subterrânea.

Além disso, as bétulas contêm enormes quantidades de nitrogênio. Este, por sua vez, serve como apoio para bactérias responsáveis por fazer o ciclo de nutrientes, criar antibióticos e produzir outros compostos químicos no solo para combater agentes patógenos e colaborar no balanceamento do ecossistema. (SIMARD, 2021 In SCHIFFMAN, 2021) (Grifo nosso)


A relação entre as árvores descoberta pelo grupo de pesquisadores do qual fazia parte a Dra. Suzanne Simard, em 1999, é chamada de micorrizas arbusculares, por serem associações entre raízes de plantas e fungos do solo do filo Glomeromycota (SCHÜßLER et al., 2001, In SOARES et al, 2012), conhecidos como fungos micorrízicos arbusculares.


A ocorrência dos fungos micorrízicos arbusculares é tão ampla que mais de 80% das plantas podem formar micorrizas arbusculares (JEFFRIES et al., 2003), sendo esta considerada uma associação cosmopolita, reconhecida como parte importante e integral dos ecossistemas naturais de todo o mundo (GADKAR et al., 2001), especialmente em florestas.


Os benefícios dessa simbiose, expressos principalmente como o estímulo ao crescimento vegetal, devem-se a fatores nutricionais, principalmente ao aumento da absorção de nitrogênio (COSTA; LOVATO, 2004), potássio e, especialmente, fósforo (CALVET et al., 2003). Os fungos micorrízicos arbusculares, além de melhorar o estado nutricional das árvores, aumentam a tolerância a doenças radiculares (BORGES et al., 2007), aceleram o crescimento e melhoram o vigor das mudas na sua fase de formação (LINDERMANN; DAVIES, 2001, In SOARES et al, 2012).


Como já é possível entender, diante do que foi exposto, as árvores não são seres solitários e são capazes de se associarem através de suas raízes, com outras espécies de seres vivos, como os fungos micorrízicos, para aproveitarem melhor os nutrientes do solo, bem como trocarem nutrientes, carbono e água com outras árvores de espécies diferentes. Assim, é possível afirmar que as árvores são seres sociais.


Analisando o solo onde elas vivem, a cientista Suzanne Simard (UBC/Canadá) descobriu que há uma espécie de rede subterrânea de fungos que conecta as árvores que estão próximas - uma espécie de “internet vegetal”. Por meio dessa rede, as plantas trocam nutrientes e mensagens de alerta, por exemplo, quando se sentem ameaçadas. Portanto, segundo a pesquisadora, debaixo da terra há muita colaboração. (UM SÓ PLANETA, 2021).



Dra. Suzanne Simard nos esclarece que as árvores


promovem a diversidade. Estudos mostram que a biodiversidade leva à estabilidade e resiliência. E é fácil ver por quê. É um sistema sinérgico. Por exemplo, existe uma planta com alta capacidade fotossintética e alimenta todas essas bactérias do solo que fixam nitrogênio. Enquanto isso, há essa outra planta com raízes profundas. Ela desce e traz água, que compartilha com a planta fixadora de nitrogênio, pois esta precisa de muita água para realizar suas atividades. Então, de repente, toda a produtividade do ecossistema aumenta. (SCHIFFMAN, 2021). (Grifo nosso)


A comunicação entre as árvores e com outros organismos, ocorre com maior intensidade, embaixo da terra, através de suas raízes. Entretanto, elas também se comunicam através do ar quando os grãos de pólen são transportados pelo vento ou por insetos polinizadores (abelhas, moscas, besouros, borboletas, vespas, mariposas), promovendo a troca de DNA, responsável pela imensa biodiversidade da flora, espalhada pelo planeta; e pela água quando seus frutos e sementes são transportados pelas correntezas de rios e mares.


Uma das grandes descobertas feitas pela Profa. Dra. Suzanne Simard, a partir de suas pesquisas com sua equipe, é o fato de que as árvores maiores e mais velhas, de um bosque ou floresta, se colocam como “árvores-mães”, cuidando das árvores mais jovens (plântulas) de sua espécie, como também de outras espécies. A “árvore-mãe” é capaz de identificar as plantas ao seu redor que necessitam de maior quantidade de nutriente, de água, de sombra para se desenvolverem com vitalidade. As “árvores-mães” “agem como hubs (concentradores) centrais para vastas redes subterrâneas de micorrizas. Uma árvore mãe ajuda as plântulas infectando-as com fungos e fornecendo os nutrientes que elas necessitam para crescer” (SIMARD, 2016).


As árvores-mães são capazes de reduzir as suas raízes para dar espaço para as “filhotes". Além disso ela sabe enviar às pequenas mudas vizinhas carbono e sinais de defesa que servem para aumentar a sua resistência.


As árvores-mãe são as maiores e mais antigas da floresta. Elas são a cola que mantém a floresta unida e possuem os genes de climas anteriores. Essas árvores-mãe são o lar de várias criaturas, de uma enorme biodiversidade. Por meio de sua enorme capacidade fotossintética, elas fornecem alimento para toda a vida presente no solo. Além disso, “árvores-mãe” mantêm o carbono no solo e na superfície e conservam também o fluxo de água, ajudando, assim, a floresta a se recuperar de perturbações. Não podemos nos dar ao luxo de perdê-las. (SIMARD, 2021 In SCHIFFMAN, 2021). (Grifo nosso)



Essa conexão é tão forte que, conforme pesquisas da equipe da Profa. Dra. Suzanne Simard, quando uma árvore-mãe é cortada, a taxa de sobrevivência dos membros mais jovens da floresta é reduzida drasticamente. A ligação chega a ser comparada à sinapse dos neurônios humanos (CENTRAL FLORESTAL, s/d). Portanto, as árvores não gostam de ficar sozinhas. Para que haja um bom desenvolvimento, elas precisam estar próximas de outras árvores, para que a troca / distribuição de nutrientes, carbono, água e microrganismos seja feita de modo a priorizar quem mais precisa e, assim, contribuírem para a vida longeva e de qualidade de todo o bosque ou floresta. (SIMARD, 2021)


Na opinião da pesquisadora “não podemos considerar as árvores como entidades completamente independentes” (SIMARD, 2020), constatando que há uma interdependência sistêmica entre as plantas. Suas teses são o resultado de 30 anos de trabalho e pesquisa nas florestas do Canadá.


A partir dessa descoberta científica, é necessário observar com mais atenção para as árvores que ainda ornamentam e arejam as cidades, ou que fazem parte de nossas florestas e dos diversos ecossistemas que constituem os biomas brasileiros, de modo a protegê-las da ignorância, da ganância e/ou da indiferença daqueles que as consideram apenas um meio de obter lucros ou como um estorvo.


As árvores, precisam estar juntas, formando bosques ou florestas, protegendo e alimento umas às outras e nutrindo a Terra com seus frutos e raízes. Para tanto, é necessário que se faça o reflorestamento das áreas devastadas pelo desmatamento, bem como que as leis de proteção às florestas sejam cumpridas.





[1] Docente do Curso Licenciatura em Ciências Biológicas, Universidade do Estado da Bahia – UNEB / DEDC – Campus VIII. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0838920937933125



REFERÊNCIAS


CENTRAL FLORESTAL. Você sabia? As árvores podem se comunicar e cuidar uma das outras. Central Floresta. s/d. Disponível em: http://www.centralflorestal.com.br/2016/12/voce-sabia-as-arvores-podem-se.html

FRITTS, H. C. Tree rings and climate. London: Academic Press, 1976, 567 p.


NOGUEIRA, Pedro A. F; CARVALHO, Ana K. F. de; COSTA, Antonio C. da S; AMORIM, Louise D. M. de. Estudo dos impactos ambientais causados pelo plantio exacerbado da planta nim (Azadirachta indica) na cidade de Encanto-RN. 69ª Reunião Anual da SBPC - 16 a 22 de julho de 2017 - UFMG - Belo Horizonte/MG. Disponível em: http://sbpcnet.org.br/livro/69ra/resumos/resumos/3106_177c80b7ed41f2333c8dd5b106f024e35.pdf


SCHIFFMAN, Richard. Árvores conseguem aprender e lembrar de coisas, defende famosa ecologista em novo livro. Scientific American Brasil. Publicado em 06/05/2021. Disponível em: https://sciam.com.br/arvores-mae-sao-inteligentes-elas-aprendem-e-lembram/


SIMARD, Suzanne. Árvores inteligentes. Documentário. Rede de Televisão Portuguesa - RTP no YouTube, publicado em 30/12/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KS5_m6E_TzM


SIMARD, Suzanne. How trees talk to each other. Palestra proferida no Ted Talks, em junho de 2016. Disponível em: https://www.ted.com/talks/suzanne_simard_how_trees_talk_to_each_other#t-3773


SILVA, Roseana Pereira da; SOUZA, Cacilda Adélia Sampaio de; AMARAL, Márcio Rogério Mota; CARNEIRO, Vilany Matilla Colares; BARROS, Priscila Castro de; MARRA, Daniel Magnabosco; SANTOS, Joaquim dos; HIGUCH, Niro. Árvore: crescimento, desenvolvimento e identificação. Research Gate. Chapter · January 2012. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/294873422


SOARES, Ana Cristina Fermino; SOUZA, Carla da Silva; GARRIDO, Marlon da Silva; LIMA, Francisco de Sousa. Fungos micorrízicos arbusculares no crescimento e nutrição de mudas de jenipapeiro. Rev. Ciênc. Agron., v. 43, n. 1, p. 47-54, jan-mar, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rca/a/q7vDNvtMzWWmPfbDmLNYx3k/?format=pdf&lang=pt


UMSÓPLANETA. Nada de solidão: árvores conversam entre si, têm 'sentimentos' e se comunicam por 'internet' da floresta. Por Redação, Um Só Planeta. Em 12/05/2021. Disponível em: https://umsoplaneta.globo.com/biodiversidade/noticia/2021/05/12/nada-de-solidao-arvores-conversam-entre-si-tem-sentimentos-e-se-comunicam-por-internet-da-floresta.ghtml


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