ÁRVORES - I Conhecer. Plantar. Defender. Proteger.

XAVIER, Josilda B. Lima M.[1]

Universidade do Estado da Bahia – UNEB


Você sabe o que é uma árvore? Como caracterizá-la? Como saber a sua idade? Quais seres vivos dependem dela para viver? Quais tipos de árvores existem?



O que mais lhe chama atenção em uma árvore? Sua altura? A força de seus galhos? A espessura de seus troncos? O tamanho ou a forma de suas folhas? São as flores, cada uma mais bela que a outra? E os frutos, além de belos, são saborosos, não é mesmo?


As perguntas acima parecem tolas...


Todos devem se perguntar: Quem não sabe o que é uma árvore?


Então... Vamos lá! Vamos ver se, de fato, sabemos o que é uma árvore e qual a sua importância para a Terra.


É certo que podemos “ver” uma árvore de diversas formas: oferece sombra, permite brincadeiras...


Além de tudo isso... Certamente, sua atenção deve ser despertada pela quantidade e diversidade de animais que habitam as árvores, que lá fazem seus ninhos ou se alimentam, tais como:


Ø Insetos: Várias espécies de formigas (Família Formicidade); joaninhas (Família Coccinellidae); vespas, marimbondos (Subordem Apocrita); abelhas (Família Apideae) etc.


Ø Mamíferos, como morcegos (Ordem Chiroptera) que em sua maioria são insetívoros e frugívoros; macaco muriqui (Família Atelidae); esquilos (Família Sciuridae); tamamduaí (Gênero Cyclopes); bicho-preguiça (Subordem Folivora) etc.


Ø Aves: papagaios, araras, periquitos (Família Psittacidae); Cacatuas e calopsitas (Família Cacatuidae); lories (Família Loriidae); corujas (Ordem Strigiforme); tucanos e araçaris (Família Ramphastidae); viuvinha (Colonia colonus); pica-pau-de-banda-branca (Família Picidae); galo-da-serra (Família Cotingidae) etc.


Ø Repteis: iguanas (Família Iguanidae); lagarto-preguiça (Polychrus marmoratus); serpente trepadeira (Família Colubridae); lagarto aniju-acanga (Enyalius catenatus); lagarto de cauda espinhosa (Strobilurus torquatus) etc.


Para Fritjoff Capra, físico austríaco, em seu livro O Ponto de Mutação (1983), ao falar sobre a complexidade das relações entre os seres vivos, exemplifica a árvore como sendo uma legítima representante de um sistema orgânico, que se auto-organiza em busca de um equilíbrio dinâmico. Ou seja, todos os organismos que interagem com uma árvore, atuam, juntos, para que haja equilíbrio em todos os sistemas envolvidos (árvore, animais, fungos, solo, microrganismos), que constituem o sistema terrestre.


Do mesmo modo, os biólogos Maturana e Varela (1995), no livro A Árvore do Conhecimento, desde o século passado, nos convidam a refletir sobre várias questões, inclusive esta: Qual é a organização de todo ser vivo? E, ao longo de todo o livro, os autores analisam a forma pela qual nós, humanos, nos relacionamos com o ambiente, com a natureza.


Nesse texto, consideramos as premissas de Fritjof Capra, no que se refere a organização sistêmica da vida (2006), e o que nos desafiam Maturana e Varela (1995), no que se refere a “árvore do conhecimento” enquanto estudo científico dos processos que subordinam o conhecimento, e que, portanto, nos comprometem a tomarmos atitudes de vigilância e proteção do nosso planeta.


Desse modo, ousamos dar um “passeio” sobre conceitos biológicos/botânicos, sobre comportamento humano, bem como sobre a essencialidade de conhecermos mais de perto e proteger, um grupo de seres vivos que, também, são responsáveis por alimentarem a Terra, as plantas, e mais especificamente, as árvores.


Vamos lá!?

...

A área das Ciências Biológicas que estuda as árvores e todas os grupos de plantas existentes na Terra, é a Botânica. Até o início do século XX, Salantino e Buckeridge (2016), nos contam que “mostrar conhecimentos sobre botânica era elegante e demonstração de bom gosto” e, portanto, “era reconhecida como Scientia amabilis (ciência amável), desde os tempos de Carolus Linnaeus (século XVIII), que foi o criador do termo”.


Minhoto (2002), por sua vez, nos esclarece que a palavra Botânica vem do grego botané, que significa "planta", que deriva do verbo boskein, "alimentar", nos permitindo traduzir, de forma livre, como sendo a área da Biologia que estuda os seres que alimentam a Terra: as plantas.


Uma árvore, em termos biológicos, se caracteriza por ser uma planta permanentemente lenhosa de grande porte, com raízes pivotantes, caule lenhoso do tipo tronco, que forma ramos bem acima do nível do solo e que se estendem até o ápice da raiz. (MARTINS-DA-SILVA et al, 2014)


Muitas ordens e famílias botânicas têm árvores entre seus representantes, com uma grande variedade na anatomia (formas) de copas, folhas, flores, frutos, estruturas reprodutivas, tipo de madeira, que são inclusive usados na identificação da espécie. (MARTINS-DA-SILVA et al, 2014). Esteticamente, todas essas formas, deslumbram a todos(as) que as observam.


Um pequeno grupo de árvores crescendo juntas forma um bosque, e um ecossistema complexo formado por várias espécies de árvores e outros vegetais constituem uma floresta, como são os casos da Floresta Amazônica e da mata Atlântica. Muitos biótopos são caracterizados pelas árvores que os formam, como é o caso da Mata dos Pinhais do sul do Brasil. Já o Cerrado e as Savanas do mundo todo são campos salpicados aqui e ali por árvores xerófitas (CARVALHO, 1999), plantas adaptadas para viverem em regiões de climas semiárido e desértico (árido).


A Caatinga é um bioma complexo e de difícil caracterização, em virtude de sua variabilidade em relação ao tipo de solos, o que define a sua biodiversidade. Assim, para alguns autores a caatinga se caracteriza por ter uma vegetação que poderia ser enquadrada como um arbustal espinhoso com suculentas (OLIVEIRA FILHO et al., 2006); vegetação caducifólia espinhosa (ALCOFORADO-FILHO et al., 2003) ou seja, a maioria das árvores perdem suas folhas na estação seca; e árvores com raízes modificadas, xilopódios, onde armazenam água e nutrientes como a espécie Spondias tuberosa (umbuzeiro). (KIILL, s/d).


Na classificação brasileira, a caatinga é uma savana estépica, o que a colocaria junto aos cerrados e outras vegetações abertas (BRAND et al, 2012). Sem dúvida, a diversidade de fisionomias presentes no domínio das caatingas dificulta o enquadramento em qualquer tipologia e sempre haverá áreas de exceção (SAMPAIO, 2010).


Entre a vegetação arbórea da Caatinga, se destacam:


Ø a catingueira (Poincianella pyramidalis Tul. L.P. Queiroz) pertence à família Fabaceae, uma das espécies de maior ocorrência no semiárido brasileiro (MAIA, 2004; SIQUEIRA FILHO et al., 2009), sendo utilizada na construção rural e como fonte energética (lenha e carvão);


Ø o pau-d’arco [Handroanthus impertiginosus (Mart. ex DC.) Mattos] pertence à família Bignoniaceae (SIQUEIRA FILHO et al., 2009) e produz madeira de qualidade, usada como pontes, mourões, construção civil e naval (MAIA, 2004) In MEDEIROS NETO; OLIVERIA; PAES, 2014);


Ø a caraibeira (Tabebuia aurea), a carnaubeira (Copernicia prunifera), o juazeiro (Ziziphus joazeiro), e o pau ferro (Caesalpinia ferrea), entre outras, usadas “em programas de paisagismo de ruas e praças, por apresentar copas frondosas, troncos revestidos com cascas de texturas e coloração rajada que conferem à árvore um aspecto ornamental (ALVAREZ; KIILL, s/d),


Ø considerando, também, a importância de muitas delas serem usadas como medicamento, como por exemplo o pau ferro (cicatrizante, antisséptico, febrífugo etc.), o juazeiro (estomáquica, expectorante etc.) (SIGRIST, 2015), entre outras.



Como estamos verificando, as árvores nos surpreendem em todos os ambientes / ecossistemas de nosso planeta, seja por sua beleza (estética, ornamental), por sua utilidade (alimentar, construções, energia), seja por seu potencial medicamentoso.

Entretanto, a importância das árvores para o sistema terrestre, está para além dos aspectos apontados, sendo, inclusive objeto de pesquisa de diversas áreas do conhecimento, tais como:


Ø a Paleontologia, através do estudo e registro de madeiras fossilizadas (HOHEMBERGER, 2021);


Ø a Etnoarqueologia, que estuda a ocupação de espaços por povos e/ou comunidades tradicionais, nos quais é possível verificar que “as árvores e as plantas, frutíferas e/ou medicinais, são um legado transmitido de geração em geração, mantendo vivas as memórias, cheiros, sabores e saberes de um povo que lutou e luta pelo direito de viver livre, cultivando suas árvores e sua fé” (MIRANDA; BARBOSA, s/d);


Ø no Urbanismo, através de estudos que identificam “a necessidade de ampliação de biodiversidade de vegetação arbórea no meio urbano é um fato amplamente aceito pela comunidade científica e pelos técnicos em manejo de árvores públicas” (ROSSETTI; PELLEGRINO; TAVARES, 2010), além da Botânica.


Engana-se, quem pensa que as árvores são seres “imóveis”, e que seus movimentos são apenas o balançar de seus galhos a depender do vento. Elas, as árvores, estão em permanente movimento, desde o seu ápice até sua raiz mais profunda. Diante da mobilidade das árvores, Santana e Santos (1999), alertam que “Temos que lembrar que as árvores não são estáticas e, ao serem plantadas, exigem planejamento, a fim de evitar danos futuros”.


Uma outra característica marcante das árvores, é o fato de estarem distribuídas em quase todos os lugares dos continentes da Terra, excetos nos picos de montanhas de altitudes muito geladas e nas calotas polares, o que diz muito sobre sua enorme capacidade adaptativa e sua importância para a vida no planeta. Assim, encontramos as árvores, símbolo de vida em pleno, nos mais variados lugares do continente: no alto de montanhas, no deserto, nos manguezais etc.


Apesar de toda a sua beleza, força e adaptabilidade, as árvores não têm conseguido sensibilizar o sistema econômico capitalista-financista, que as estão devastando, há séculos, em todos os continentes. Apesar do conhecimento científico, elaborado a partir de milhares de pesquisas, demonstrando a essencialidade das plantas e, especificamente das árvores, a devastação das florestas está aumentando, principalmente aqui, em nosso país.


Por que não nos sensibilizamos com a derrubada de milhões de toneladas de árvores, pelos madeireiros, criadores de gado e pelo agronegócio na Amazônia, na Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga?


Por que não nos escandalizamos quando vemos imagens ou vídeos mostrando milhões de hectares de árvores, sendo reduzidas a cinzas, nos incêndios criminosos causados por grileiros (invasores de terras indígenas, quilombolas e do estado)?


Por que não conseguimos “ver” que com o desmatamento e os incêndios, criminosos, das florestas, estamos dizimando o habitat de milhares de espécies animais (insetos, répteis, aves e pequenos mamíferos), bem como de fungos e microrganismos, fundamentais para a existência da vida na Terra?


Não compreendemos que estamos destruindo a organicidade sistêmica terrestre e que, com isso, contribuindo para a degradação da qualidade de vida para 99,9% dos humanos, é cada vez maior. Por quê?





[1] Docente do Curso Licenciatura em Ciências Biológicas, Universidade do Estado da Bahia – UNEB / DEDC – Campus VIII. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0838920937933125



REFERÊNCIAS


ALCOFORADO-FILHO, F. G.; SAMPAIO, E. V. S. B.; RODAL, M. J. N. Florística e fitossociologia de um remanescente de vegetação caducifólia espinhosa arbórea em Caruaru, Pernambuco. Acta bot. bras. v. 17, n. 2, p. 287 - 303, 2003.


ALVAREZ, Ivan André; KIILL, Lúcia Helena Piedade. Árvore do conhecimento – Bioma Caatinga. Agência Embrapa de Informação Tecnológica - ABEITEC. s/d. Disponível em: https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/bioma_caatinga/arvore/CONT000g5twggzh02wx5ok01edq5s51t8rov.html


BRAND, Martha Andreia; OLIVEIRA, Luciane da Costa; LACERDA, Stephenson Ramalho; TONIOLO, Eliseu Rossato; LEAL JÚNIOR, Geraldo; CAMPELLO, Ricardo Barreto. Caracterização da vegetação da caatinga do sul do Piauí para geração de energia. Floresta, Curitiba, PR, v. 45, n. 3, p. 477 - 486, jul. / set. 2015. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/floresta/article/view/27753


CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Editora Cultrix, 2006.


CARVALHO, João Olegário Pereira de. Dinâmica de florestas naturais e sua implicação para o manejo florestal. Simpósio silvicultura na Amazônia oriental: Contribuições do Projeto Embrapa / DFID. Belém, PA, 23 a 25 de fevereiro de 1999. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/394985/dinamica-de-florestas-naturais-e-sua-implicacao-para-o-manejo-florestal


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KIILL, Lúcia Helena Piedade. Bioma Caatinga – Flora. Agência Embrapa de Informação Tecnológica – AGEITEC. s/s. Disponível em: https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/bioma_caatinga/arvore/CONT000fxt42i5k02wyiv804u7ypccpiahjr.html


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